terça-feira, 10 de setembro de 2013

A Galinha

A primeira coisa que reparei ao entrar na casa, foi a grande e gorda galinha preta empoleirada no sofá. Penas brilhantes variando para o azul marinho, gordas cristas deformadas e tão vermelhas quanto uma crista pode ser. E no momento que a vi, logo tive certeza: não a queria ali. 
Bem, o normal seria se eu fosse uma menininha que acabou de sair da puberdade e começou a temer galinhas ou por medo ou porque as amiguinhas também temiam e seria estranho simpatizar com um inimigo, mas eu não me encaixava em nenhum desses critérios. Primeiro por ser um garoto, segundo por minha única amiga - de sexto feminino, é importante ressaltar, pois também possuo amigos de sexo masculino - é uma garota que simplesmente ama animais e não limita esse amor até as galinhas. Seria normal encontrar uma galinha numa sala, até porque Fernanda tinha uma cacatua e um ganso de estimação que andavam livremente por sua casa, e sempre que Denis e eu a visitávamos, os bichos não tinham vergonha de fazer-nos de almofada ou, no caso de Denis, um saco de pancadas. Mas com aquela galinha era diferente. 
Quando eu a vi, ali, bancando a dona da sala, emprumada no sofá, observando-me com superioridade, senti minhas entranhas darem voltas e meu almoço subir a garganta. Era normal que tia Rosa arranjasse bichinhos de estimações exóticos, mas era a primeira vez que trazia uma galinha. E era uma galinha maligna. Eu podia percebê-lo pelo olhar da coisa. Tinha a cabeça meio inclinada para o lado e me observava atentamente, como se pensasse. E lá estava ela, na casa da minha tia logo no dia que eu dormiria lá. 
Tentei explicar a minha tia que ela deveria fazer daquilo, um belo ensopado ou até mesmo uma lasanha, ou, se tivesse se afeiçoado demais ao bicho, que levasse a um supermercado que lá mesmo a matavam. Mas ela pareceu chocada e falou algo como "ninguém toca no meu bebê". Eu deveria ter suspeitado que seria assim. Sempre disse para minha mãe que aquela velha era louca. Era a irmã mais velha do meu pai e deveria ter uns 70 anos de idade. Ao que parecia, a caduquice havia batido na sua porta e ela deixara entrar aquela maldita galinha! 
Como uma pessoa normal. Decidi encarar os fatos como um homem e fui direto para o quarto de hóspedes e descansar da viagem. Como era de se esperar num feriado, minha mãe me mandara para a casa da tia Rosa na intenção de explorar minha boa vontade e trazer de lá uns trecos que ela tinha deixado por aqui alguns meses atrás. E ah, claro, fazer com que eu me aproximasse mais do lado paterno da família. Por minha mãe viver longe de meu pai, ela se achava na responsabilidade de me obrigar a conviver com ele e seu lado sanguíneo da família. 
De uma forma ou de outra, acabei por adormecer cedo. E para provar o quanto a galinha era do mal, acabei tendo um dos piores pesadelos que já tive, ou pelo menos que me lembro. Tinha sido mais um daqueles que começa estranho, você se levantando da cama para fazer Deus sabe lá o quê. Então, no sonho, deparei-me com a galinha emprumada na frente da porta do quarto onde eu dormia. Ela não estava de passagem, era um daqueles sonhos que você sabe não sabe como mas sabe. A galinha estava me esperando. E me encarava com a cabeça levemente inclinada para a esquerda. Seu bico estava entreaberto e vê-la no escuro causou-me um arrepio tão extravagante que acabei soltando um berro e chutando o capiroto para longe! 
A bicha também gritou e usou as asas para abafar a queda. Quebrou alguns jarros da tia. Caiu em pé no chão, encarou-me malignamente antes de cair no chão e abrir uma asa desajeitadamente. Lembro-me que nesse mesmo instante a tia Rosa apareceu na cozinha e pareceu chocada com a cena. E naquelas magias que só aparecem em sonhos, vi-me com uma faca de cortar carne na mão. E para piorar a coisa anida estava melada com o sangue daquela ave dissimulada. Quando dei-me por mim, percebi que estava do outro lado da cozinha, podia ver claramente a porta do meu quarto na outra extremidade. Sempre estivera eu ali? Quando andara até ali? Outro dos segredos obscuros dos sonhos!
E par piorar, a velha correu, numa velocidade inacreditável para a idade dela, em minha direção. "O que você está fazendo!? Pare! Pare! Farei um cozido de  v o c ê,  seu moleque maluco!", gritava a mulher, como uma daquelas bruxas de filmes da disney enquanto corria em minha direção. Não parecia ela mesma. Os cabelos brancos pareciam misticamente bagunçados e ousados demais para obedecerem a lei da gravidade. Seu rosto brilhava num tom esverdeado e até mesmo suas verrugas pareciam maiores. Seus dedos esqueléticos e compridos pareciam garras nas mãos ansiosas por mim. 
Berrei de pavor! Sem pensar, atirei a faca e fechei os olhos. Sabia que erraria, mas como uma magia, acertei em cheio a velha quando esta já estava a centímetros de mim. Quando os abri novamente, eu a vi estatelado no chão guinchando de dor, como faria um animal. Ela acocorara-se e usava as duas mãos para pressionar o olho esquerdo. A galinha cantou. A tia bruxa falou palavras sem sentido. Uma maldição, eu sabia da mesma forma que sabia que a galinha me esperara na porta do quarto. Aquilo deveria ser algum ritual. A velha se tornara um tipo de servidora do mal no tempo que eu estivera fora. Por isso a galinha preta! Tinha que ser! 
Corri até a gaveta de talheres e puxei uma faca para acabar com a bruxa e suas maldições. Mas como é de se esperar num sonho, o objeto que eu peguei não era o que estava em minhas mãos, então resolvi, numa fração de segundo, que usaria o garfo para espetar a mulher-bicho. 
E o fiz. De primeira, apenas consegui fazer alguns arranhões e ela urrou de dor, exatamente como um animal servo do mal que era ela e a galinha. Tentei novamente e de novo e pela quarta vez! Seu sangue espirrou sobre minha roupa, sobre a dela, sobre a cozinha e a cara da maldita galinha que cacarejava sem parar. 
A mulher soltou um último berro de dor antes de se silenciar para sempre. A galinha não. Não. Aquele bicho continua. Quando cheguei perto, seu poder obscuro era tal que comecei a ouvir vozes. Estas gritavam, exclamavam e interrogavam coisas sem sentido. Soltei o garfo e tampei meus ouvidos. "Pare! Chega! Pare!" Lembro-me de ter gritado, mas de minha boca também saíram apenas palavras sem sentido. 
Foi aí que eu acordei. 
Eu já não estava na casa da tia Rosa. Estava em minha própria cama. Molhado de suor. Espere, minha cama? Aquele quarto estava branco demais. Tinha no teto apenas um lâmpada fina e comprida. sentei-me na cama e percebi Denis sentado numa cadeira ao lado da cama em que me encontrava com a cabeça apoiada no colchão, perto da minha perna. Percebi também que as roupas que eu usava eram frescas. Bem frescas. Principalmente lá em baixo, se é que me entendem... Tentei acordar meu amigo adormecido pouco antes de perceber onde estava. Um hospital. 
Foi aí que percebi que toda aquela loucura tinha sido um sonho. Bem, até minha mãe entrar, ao lado do meu pai, no quarto. Era raro vê-los juntos. Principalmente  assim, sem se matar. Eu diria calmos, mas nunca vira meu pai com olhos tão vermelhos. Percebi, casualmente, que os dois trajavam negro. Como dois executivos. 
Meu pai ocupou-se em sentar ao meu lado enquanto mamãe acordava Denis e pedia para que ele esperasse do lado de fora. Bem, esse segundo pesadelo começou quando papai falou em sua voz mais calma possível: 
-Filho, quero que você me diga, o que, exatamente aconteceu na casa da sua tia Rosa no dia que ela morreu, antes de você ter um ataque e apagar.

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