terça-feira, 10 de setembro de 2013

A Galinha

A primeira coisa que reparei ao entrar na casa, foi a grande e gorda galinha preta empoleirada no sofá. Penas brilhantes variando para o azul marinho, gordas cristas deformadas e tão vermelhas quanto uma crista pode ser. E no momento que a vi, logo tive certeza: não a queria ali. 
Bem, o normal seria se eu fosse uma menininha que acabou de sair da puberdade e começou a temer galinhas ou por medo ou porque as amiguinhas também temiam e seria estranho simpatizar com um inimigo, mas eu não me encaixava em nenhum desses critérios. Primeiro por ser um garoto, segundo por minha única amiga - de sexto feminino, é importante ressaltar, pois também possuo amigos de sexo masculino - é uma garota que simplesmente ama animais e não limita esse amor até as galinhas. Seria normal encontrar uma galinha numa sala, até porque Fernanda tinha uma cacatua e um ganso de estimação que andavam livremente por sua casa, e sempre que Denis e eu a visitávamos, os bichos não tinham vergonha de fazer-nos de almofada ou, no caso de Denis, um saco de pancadas. Mas com aquela galinha era diferente. 
Quando eu a vi, ali, bancando a dona da sala, emprumada no sofá, observando-me com superioridade, senti minhas entranhas darem voltas e meu almoço subir a garganta. Era normal que tia Rosa arranjasse bichinhos de estimações exóticos, mas era a primeira vez que trazia uma galinha. E era uma galinha maligna. Eu podia percebê-lo pelo olhar da coisa. Tinha a cabeça meio inclinada para o lado e me observava atentamente, como se pensasse. E lá estava ela, na casa da minha tia logo no dia que eu dormiria lá. 
Tentei explicar a minha tia que ela deveria fazer daquilo, um belo ensopado ou até mesmo uma lasanha, ou, se tivesse se afeiçoado demais ao bicho, que levasse a um supermercado que lá mesmo a matavam. Mas ela pareceu chocada e falou algo como "ninguém toca no meu bebê". Eu deveria ter suspeitado que seria assim. Sempre disse para minha mãe que aquela velha era louca. Era a irmã mais velha do meu pai e deveria ter uns 70 anos de idade. Ao que parecia, a caduquice havia batido na sua porta e ela deixara entrar aquela maldita galinha! 
Como uma pessoa normal. Decidi encarar os fatos como um homem e fui direto para o quarto de hóspedes e descansar da viagem. Como era de se esperar num feriado, minha mãe me mandara para a casa da tia Rosa na intenção de explorar minha boa vontade e trazer de lá uns trecos que ela tinha deixado por aqui alguns meses atrás. E ah, claro, fazer com que eu me aproximasse mais do lado paterno da família. Por minha mãe viver longe de meu pai, ela se achava na responsabilidade de me obrigar a conviver com ele e seu lado sanguíneo da família. 
De uma forma ou de outra, acabei por adormecer cedo. E para provar o quanto a galinha era do mal, acabei tendo um dos piores pesadelos que já tive, ou pelo menos que me lembro. Tinha sido mais um daqueles que começa estranho, você se levantando da cama para fazer Deus sabe lá o quê. Então, no sonho, deparei-me com a galinha emprumada na frente da porta do quarto onde eu dormia. Ela não estava de passagem, era um daqueles sonhos que você sabe não sabe como mas sabe. A galinha estava me esperando. E me encarava com a cabeça levemente inclinada para a esquerda. Seu bico estava entreaberto e vê-la no escuro causou-me um arrepio tão extravagante que acabei soltando um berro e chutando o capiroto para longe! 
A bicha também gritou e usou as asas para abafar a queda. Quebrou alguns jarros da tia. Caiu em pé no chão, encarou-me malignamente antes de cair no chão e abrir uma asa desajeitadamente. Lembro-me que nesse mesmo instante a tia Rosa apareceu na cozinha e pareceu chocada com a cena. E naquelas magias que só aparecem em sonhos, vi-me com uma faca de cortar carne na mão. E para piorar a coisa anida estava melada com o sangue daquela ave dissimulada. Quando dei-me por mim, percebi que estava do outro lado da cozinha, podia ver claramente a porta do meu quarto na outra extremidade. Sempre estivera eu ali? Quando andara até ali? Outro dos segredos obscuros dos sonhos!
E par piorar, a velha correu, numa velocidade inacreditável para a idade dela, em minha direção. "O que você está fazendo!? Pare! Pare! Farei um cozido de  v o c ê,  seu moleque maluco!", gritava a mulher, como uma daquelas bruxas de filmes da disney enquanto corria em minha direção. Não parecia ela mesma. Os cabelos brancos pareciam misticamente bagunçados e ousados demais para obedecerem a lei da gravidade. Seu rosto brilhava num tom esverdeado e até mesmo suas verrugas pareciam maiores. Seus dedos esqueléticos e compridos pareciam garras nas mãos ansiosas por mim. 
Berrei de pavor! Sem pensar, atirei a faca e fechei os olhos. Sabia que erraria, mas como uma magia, acertei em cheio a velha quando esta já estava a centímetros de mim. Quando os abri novamente, eu a vi estatelado no chão guinchando de dor, como faria um animal. Ela acocorara-se e usava as duas mãos para pressionar o olho esquerdo. A galinha cantou. A tia bruxa falou palavras sem sentido. Uma maldição, eu sabia da mesma forma que sabia que a galinha me esperara na porta do quarto. Aquilo deveria ser algum ritual. A velha se tornara um tipo de servidora do mal no tempo que eu estivera fora. Por isso a galinha preta! Tinha que ser! 
Corri até a gaveta de talheres e puxei uma faca para acabar com a bruxa e suas maldições. Mas como é de se esperar num sonho, o objeto que eu peguei não era o que estava em minhas mãos, então resolvi, numa fração de segundo, que usaria o garfo para espetar a mulher-bicho. 
E o fiz. De primeira, apenas consegui fazer alguns arranhões e ela urrou de dor, exatamente como um animal servo do mal que era ela e a galinha. Tentei novamente e de novo e pela quarta vez! Seu sangue espirrou sobre minha roupa, sobre a dela, sobre a cozinha e a cara da maldita galinha que cacarejava sem parar. 
A mulher soltou um último berro de dor antes de se silenciar para sempre. A galinha não. Não. Aquele bicho continua. Quando cheguei perto, seu poder obscuro era tal que comecei a ouvir vozes. Estas gritavam, exclamavam e interrogavam coisas sem sentido. Soltei o garfo e tampei meus ouvidos. "Pare! Chega! Pare!" Lembro-me de ter gritado, mas de minha boca também saíram apenas palavras sem sentido. 
Foi aí que eu acordei. 
Eu já não estava na casa da tia Rosa. Estava em minha própria cama. Molhado de suor. Espere, minha cama? Aquele quarto estava branco demais. Tinha no teto apenas um lâmpada fina e comprida. sentei-me na cama e percebi Denis sentado numa cadeira ao lado da cama em que me encontrava com a cabeça apoiada no colchão, perto da minha perna. Percebi também que as roupas que eu usava eram frescas. Bem frescas. Principalmente lá em baixo, se é que me entendem... Tentei acordar meu amigo adormecido pouco antes de perceber onde estava. Um hospital. 
Foi aí que percebi que toda aquela loucura tinha sido um sonho. Bem, até minha mãe entrar, ao lado do meu pai, no quarto. Era raro vê-los juntos. Principalmente  assim, sem se matar. Eu diria calmos, mas nunca vira meu pai com olhos tão vermelhos. Percebi, casualmente, que os dois trajavam negro. Como dois executivos. 
Meu pai ocupou-se em sentar ao meu lado enquanto mamãe acordava Denis e pedia para que ele esperasse do lado de fora. Bem, esse segundo pesadelo começou quando papai falou em sua voz mais calma possível: 
-Filho, quero que você me diga, o que, exatamente aconteceu na casa da sua tia Rosa no dia que ela morreu, antes de você ter um ataque e apagar.

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Rainha das águas


Passavam-se duas semanas desde que chegara ali e já não podia mais se deixar esperar. 
                    Rui Alexander era um daqueles exploradores que percorria todo o mundo em busca de uma nova aventura para viver e contar. Dessa vez, tinha sido atraído por uma lenda sobre crocodilos gigantes, que devorariam um robusto homem adulto em uma só mordida. Agora já não era esse o motivo que o mantinha preso ali. 
               Assim que chegara, o homem se deparou com um instigante boato sobre uma bela mulher à beira do lago. Nunca alguém era capaz de ver seu rosto, apenas seus negros cabelos. Tão escuros que - assim como contara Juan, o líder do acampamento-, eram quase azulados. Foram enviados homens para investigá-la, pois depois de descoberta, nenhum deles a deixaria. Segundo rumores, ela era tão linda, tão encantadora, que sua simples presença embriagara todos os enviados, deixando que apenas um voltasse com a notícia da morte dos outros dois companheiros. 
                 -Pois eu a vi, meu senhor. - explicara o sobrevivente à Juan - era linda como só a deusa Afrodite poderia ser. Tinha a pele tão corada quanto a dos nativos que rondam a floresta em busca de caça com flechas e lanças. Mas não era tão como eles. Não. Esta tinha cachos nos cabelos. E todo o tempo não prestou atenção à  nossa presença. Não tentou nos afastar nem se aproximou. Mulher linda, mas fria. Não importava o quanto a chamássemos, ela não virava o rosto. Tentamos fazer contato, pois Horácio já caía de amor por ela, e pensava já em desposa-la. Sabia eu que o senhor seu pai nunca concederia tal imprudência. Mas o rapaz, teimoso, não ouviu. Devo assumir que o que me salvou foi minha covardia, perdoe-me senhor, mas não fui capaz de chegar mais perto. A mulher era tão linda que me causava arrepios, e já havia aconselhado a minha esposa "Não chegue perto de mulheres perigosas, estas são capazes de até veneno soltar". Mas não foi aquela mulher quem os apunhalou, e sim, três dos maiores crocodilos que já vi em minha vida. Bem.. Não pude vê-los com clareza, mas os vi. Tinham bocas medonhas e suas caudas eram tamanhas que seriam facilmente confundidos com tubarões. Mas não há tubarões em lagos. Não me atrevo a voltar lá. O pobre do Horácio não pareceu ser o suficiente para alimentar metade do estômago de dois daqueles monstros. 
                Juan tentou perguntar sobre a moça. Mas o pobre homem não soube responder. Estivera assustado demais e logo foi mandado para a sua casa descansar nos braços da sua esposa. Antes de ir, este ainda aconselhou aos companheiros que o fizessem também, pois, mais cedo ou mais tarde, uma segunda tragédia aconteceria e, depois disso, não pararia mais, 
                       Os outros homens ficaram assustados o suficiente para manter em sua dieta apenas carnes vermelhas e frutas, bem longe do lago onde a mulher e os crocodilos foram encontrados. Mas Rui, pelo contrário, prometeu-lhes uma bela quantidade de peixes e ainda resolveria a mistério  da bela moça com que Horácio tanto desejara. Não ansiava por amor nem alguma luxúria. Só o que aquele homem carregava em seu valente coração era uma sede inesgotável por aventuras, conhecimentos e experiências. Conseguiu que um homem o guiasse até parte do caminho, mas nem sua boa lábia foi capaz de convencer o rapaz a ir com ele até o final da trilha que levava ao lago. 
                        Já passava do meio dia quando Rui chegou ao local. A superfície da água era lisa como vidro. Cristalina como as águas de uma banheira rasa. O lago refletia ardentemente o brilho do sol e iluminava tudo à sua volta. As árvores bem nutridas e carregadas de frutos maduros e suculentos, algumas flores silvestres belas e destratadas pela natureza, algumas rochas cravadas às margens, o colorido e místico fundo do lago e, por fim, a bela e esbelta mulher empoleirada na mais baixa e lisa pedra. 
                          Esta era a mais linda de todas as belezas que Rui vira em toda a sua via. E ele já vira muitas coisas na sua vida. Vira o nascer do sol, ao norte, quando as luzes refletiam nas molhadas paredes de gelo formando um grande e belo arco-íris; vira a danças das baleias de um navio pesqueiro a milhas de sua terra natal, vira milhares de pássaros voarem em direção ao sul no fim do outono, vira o mais belo dos jardins floridos com as mais diversas cores de rosas que já vira em toda a vida, mas nada se comparava àquela mulher. Ela tinha a pele num tom amendoado que apenas uma vida de bronzeamento poderia proporcioná-lhe. Tinha negros cabelos que esvoaçavam ao vento livremente sem formarem nós entre si, tinha a postura que nem mesmo uma rainha imitaria com tanta elegância e o que mais o surpreendera: Ela não tinha pernas. 
                      Logo em baixo de sua nua cintura, ela tinha uma escamosa cauda castanha que quase fundia com o tom de sua pele, brilhava  refletia a luz do sol como se tivesse sido polida e feita em metal. Oh! Como não ligara os pontos antes!? Rui encontrava-se diante da famosa rainha dos mares! Uma sereia! Mas tinha que contar isso ao mundo! E como tinha! Escreveria um livro com seu nome. Tinha que descobri-lo. Tinha que saber mais sobre sua vida! 
                       E sem mais esperar, o homem jogou seu fardo no chão e correu até a bela mulher. E como se não tivesse tido sorte o suficiente, ela virou para encará-lo. Tinha o rosto sereno e sonhador. Lembrava um felino. Feições suaves e inocentes. Puro e curioso. ele foi obrigado a parar para contemplá-lo. A moça sorriu com a cara de bobo do aventureiro e disse algo numa língua que ele nunca ouvira antes. E mesmo sem entender, ele desejou que ela continuasse a falar, só para que ele pudesse ter o prazer de ouvir sua voz novamente. 
                     E estava tão feliz, que podia morrer ali mesmo.
                     Ah, Rui, como não deveria tê-lo pensado. 
                    Como se ela tivesse ouvido seus pensamentos, a mulher ligeira com uma corça, pulou na água, nadou habilidosamente como uma cobra, veloz como um peixe-espada cortando a água com tanta facilidade com que cortou a pele do jovem abobado. Ainda vivo, ela o puxou para longe da superfície, para o fundo, que já não parecia tão receptivo quanto antes.
                   Eu queria possuir pernas, assim como você, ele pôde escutar, Queria eu, também, poder amar, assim como tantos outros que aqui apareceram, mas não importa o quanto eu queira, não sou uma de vocês. 
                      A voz era linda, assim como a coisa que o levava cada vez mais para o fundo. Cada vez mais para longe. Mas não era nisso que ele estava interessado. Havia coisas mais importantes que os sentimentos de um ser anormal. Tais coisas como: como ela era capaz de respirar em baixo d'água? Possuía ela brânquias também? Sempre chamava as pessoas para si assim? Era ela e sua espécie quem matava os marinheiros? Poderia ela entrar num barco e desamarrar um homem para levá-lo para o fundo do mar? 
               Haviam muitas respostas que o interessavam e lhe seriam úteis, apesar de ter consciência que morreria. Apesar de tudo, Ele só quis, naquele instante, saber a resposta de uma. A única que ele deixaria como último desejo não concedido, o nome de seu livro.
                E qual é o seu nome? - perguntou ele em meio aos engasgos e sob a pressão d'água em seus ouvidos. E mesmo com a tontura e atordoamento, ele lembrou da última palavras que ouviu em vida: 
                Iara.

domingo, 1 de setembro de 2013

Sublime negritude


Órbitas negras. Vejo aqueles olhinhos pequenos que me admiram em toda sua irracionalidade. Admiro-os da mesma forma. Tão pequenos... Rijos. Piscam para mim diversas vezes, e eu, absorta em meus pensamentos, não paro de vê-los. E com suas penas molhadas, naquela garoa de dezembro, voa em suas míseras asas tão minúsculas. Pequeno passarinho negro em meio ao deserto daquela chuva. Bem que poderia ser um corvo... Ou apenas um pássaro em busca de sua casa. Está tarde para um pássaro de hábitos tão diurnos como este estar por aí, voando em meio a essa chuva. Olho para cima e vejo aqueles enormes pingos a me impor medo... Temor. Desde quando fui tão medrosa? Enrolo-me em mim mesma, naquele chão de grãos tão minúsculos como o de areia da praia. Fina, pesarosa areia. O que faço aqui nesta praia tão deserta? Provavelmente para me lembrar dele... Viemos tantas vezes aqui, encostados neste coqueiro de tão suave existência! Peculiar coqueiro, imerso em meio a certos outros, em uma praia inóspita. Tinha por si só uma curvatura elegante, que lhe dava um ar de orgulho. Assim era ele. Orgulhoso. Quantas vezes olhou-me com desdém naquelas órbitas negras, tão negras como aquele pequeno pássaro que ainda há pouco admirava? Meus pés guiaram-me até ali, ao lado do coqueiro. Caminhava longe dali, procurando o abrigo do meu lar para proteger-me da chuva que viria, a garoa que estava por vir. Voltar para minha casa. E então, por meus próprios instintos, seguia até aquela praia... A praia de nossos romances que agora desmanchava em negro, com penas por todos os lados. Penas de destruição e veneno. Como se teve um fim? Não me recordo muito bem... É um passado envolto em choro inocente. Quando me lembro daquela época, vejo tudo embaçado e incolor. Ele me trouxe ali, e parecia que me pediria em casamento. Oito longos anos daquilo. Suportava tudo com carinho e paciência. Todos os maldizeres, a tormenta de palavras cuspidas na minha cara como quem não se importa comigo. Ouvia tudo em silêncio, e engolia os maldosos vocábulos. "Você é tão calada, engole tanta coisa aí consigo que tenho certeza que guarda uma podridão em si. Por que é tão apática a tudo e todos?". Lembro-me daquelas palavras que me cortavam copiosamente. Olhei o coqueiro, e esperava seu consolo. Quando me davam consolo? Estava sozinha ali, e as palavras cortantes queriam voltar a minha mente. Bloqueava-as em mim, no meu confuso pensar, mas pra quê? Estavam desenroladas... Fico mais próxima ao coqueiro, e espero o desenrolar dos fatos. Sim, viria em minha mente aquele trauma. Mas pela primeira vez todo completo. Esperei pelo pior, e engoli em seco.

Estava ali, com aquele meu vestido florido de azul, salpicado de cores, transmitindo uma alegria que eu tinha apesar de tudo. Era um sofrido relacionamento, mas gostava dele e suportava tudo com amor. Segurava sua mão, fato até este surpreendente. Fitava os meus pés envoltos na areia do pôr-do-sol, suave à minha pele. Ele me avisou que queria dizer alguma coisa ali, naquela praia. Esperei por suas palavras ansiosamente. Pensei que receberia a aliança ali. Encosto-me ao coqueiro, e esboço um sorriso de alguém vitorioso. "Eu disse que o teria... Todos diziam que eu estava me enganando com ele, mas olha aí a situação! Na praia em que começamos tudo". Ele solta as palavras lentamente, como quem as escolhe. Parecia atordoado. "Bem, Fernanda... Voltamos aqui, hein? Como tantas vezes. Mas desta vez é diferente. Acho que lhe devo satisfações. Posso ter sido um tanto grosso todo esse tempo, não? Acho que não esperava isso. Mas dei-lhe a chance de me conquistar. E agora..." Ouço tudo envolta em vitória, sentindo o sabor em meus lábios daquilo que tanto desejei no longo tempo em que estive com ele. Mário estava ruim. Ruim mesmo. Não lhe era confortável aquela situação. Apertei-lhe as mãos, e pensei ter expressado que estava prestando atenção, e que continuasse. 

- Enfim. Acho que me enganei com você. Pensava que fosse aquela mulher para toda a vida. Ingênua e frágil. Sim, você é. E até demais. Por que nunca me enfrenta? Por que sempre parece tão apática em meio aos meus xingamentos? Acredito que não me ama o suficiente. E nem eu amo você. De qualquer forma, foi uma diversão interessante, até mesmo nesta praia. Você estava confiante de que me teria, não? O cara mais desejado da faculdade. Mas estou seguindo o conselho de Ricardo para não lhe ferir tanto... Ele tem simpatia por você, Fernanda. Deve ser pena, acredito. Sua falta de atitude não me é mais suportável, não me traz mais curiosidade. Acho que já deu o que tinha de dar.
- Isso... Isso é um fim, Mário? - engulo em seco estas palavras, e eu pensava que sairiam sem falha. Erro meu.
- Mas que tola... É, Fernanda, é um fim. És tão idiota que não entende quando um cara tá terminando contigo? Já era, filha! Acabou, entende? Será possível que não entende nada disso? - as veias já lhe saltavam do rosto, e ele estava ficando com raiva. O borrão da minha visão crescia.
- Mas... Mário! Eu pensava que gostava de mim. Você disse que gostava. - me encolhi em meio a mais manifestações dele, e ajeitava os óculos com minhas mãos trêmulas, não obedecendo mais a comando algum de meu cérebro.
- (...) Sua estúpida! Nunca percebeu que eu que aguentava você em todo seu silêncio? Toda sua apatia ingênua e infeliz. Avisaram-me que era só timidez. Não, Fernanda, criei antipatia por seu ser tão sem sal. Pensei que seria mais fácil me livrar de você. Mas claro, isso só mostra como sempre erro em qualquer coisa que penso de você. - ele já levantava para ir embora, enfurecido com todo o rumo da situação.
- Seu... Argh, Mário! Você... Você não pode fazer isso comigo! - afastava-me para me apoiar no coqueiro, porque minhas pernas já não aguentavam mais suportar o peso de meu corpo. Ao ouvir estas palavras, foi pra cima de mim em um ímpeto de raiva.
- Claro que posso, Fernandinha! - falava-me com desdém. - Posso tanto que já estou fazendo. Já era pra você, já deu o que tinha que dar. Agora chora, pelo menos expressa uma vez na vida o que sente! - cuspia os versos em mim, e eu me encolhia, absorvendo aquelas palavras, ouvindo-as como quem nunca gostaria de ter a capacidade de escutar.

Observava seus olhos em mim coléricos, com suas íris enegrecidas dilatadas com o fervor da ira. Gostava de admirá-las porque transpareciam amor. Seus olhos dissipavam as trevas em mim, e acalmavam-me mesmo com suas palavras grossas e venenosas. Era só enxergá-los para sentir-me melhor. Mas desta vez era diferente... Seus olhos estavam terríveis. Não dissipavam mais as trevas em mim. Criavam-nas. E todas aquelas suas palavras... Não estavam ajudando. Pude ver a realidade, como se tivessem tirado a venda de meus olhos. Vi a cólera estampada em seu rosto, e esta foi transmitida em mim. Suas palavras eram repetidas como um disco arranhado em minha mente, todas aquelas palavras horríveis foram dispostas em meu intelecto. Eu o vi como um nada. Como um ser desprovido de amor e razão. Senti raiva. Primeiramente raiva de mim mesma por sempre ter sido tão tola com ele. Então parei de ouvi-lo. Estava prestando atenção à vozinha que vinha em minha mente conflituosa, bem lá no fundo... Estava em um tom bem baixo, portanto, atentei mais ao que ela falava. Ainda estava muito confuso.

Fechei meus olhos por um instante, e percebi que ele estava pegando suas coisas para ir embora definitivamente. Então aconteceu. Não lembro muito bem, porque tudo não passava de um borrão. Lembro-me de ouvir a voz e dar sentido a ela... Dizia que ele merecia a suave morte. Porque eu era estúpida e sempre tinha sido boa para ele, ouvindo-o, amando-o, não reclamando... Atentava a voz, e a obedeci. Abri os olhos e procurei por algo... Vi um coco a 1 metro, e corri para lá. Peguei-o e segurei com todas as minhas forças. Estamos em um boliche. Sim... Mário pagaria por tudo isso. Não morreria, claro, por que o mataria? Apenas o machucaria para que soubesse que reajo às coisas. Que sou vivente e tenho atitude. Talvez me queira de volta depois dessa. Talvez seja este o sal que estava faltando em mim... Ouvi estes pensamentos em mim e tive nojo. Nojo de mim mesma. Eu era estupidamente apaixonada por ele. Ainda lúcida, morria de amores e faria de tudo para tê-lo de volta.

O coco não estava mais em minha mão, e a lembrança se torna cortada. O que acontece agora? Esforço-me para lembrar... Remexendo uma memória antiga e cheia de conflitos. O causador da minha irônica loucura. Vejo a cena de seu rosto com uma fina linha escarlate brotando da cabeça... Havia batido a cabeça no coqueiro que estava a sua frente, levado a queda por causa do coco que joguei, logo pensei. E estava desmaiando... Peguei-o ainda acordado, e pude falar algumas palavras... Algo como, "você vai ver como eu mudei... Olhe, estou fazendo o que quero, estou tendo atitude! Você ainda me ama, não é, Mário? Eu amo você e não deixarei que se vá...". Tento lembrar, mas faltam partes... Seus lindos olhos negros observam aquela cena, fitam o nada e depois se fecham de ímpeto. Estou abrindo minha bolsa... Sim. Aquela pequena tesourinha de unha. Olho para Mário e... Há um lapso. Não há nada para ver, mas ouço minha risada triunfante, dramática. Ouço um barulho oco, duro, mas não o entendo... Será o som de sua cabeça batendo em algo? Mas então sinto que estou cortando algo com muita meticulosidade. Perfurando, retalhando, obstruindo. Sinto minhas mãos e estão molhadas por alguma coisa. Acho que neste momento já estou possuída pela insanidade, e ela me veio como uma brisa, mas não mais brisa, um furacão, pegou-me como por um acidente. Seguindo aquela voz da cabeça de início.

O meu peito dói, mas não é mais lá naquela lembrança... É aqui. A dor nasce em mim, remoendo aquelas lembranças pela primeira vez, e dou-me conta do que fiz. Monstro. Horrenda. Terrível. Pena que não existe a prisão perpétua... Deveria para alguém tão medíocre como eu. Volto a concentrar-me na lembrança, e recordo-me da ligação confusa que fiz pela manhã... Ouço o som de uma ambulância, e de um choro repentino. Vejo-me agora cambaleante pela rua, e agora me encontro cuspindo umas palavras de forma rápida e confusa para um policial que estava em minha frente observando-me e ouvindo-me atentamente. Era clara esta parte. Confessava o assassinato de Mário... E chorava em meio a tudo isso. Dizia não entender o que havia se passado.

Lembro-me dos dias na prisão, da minha mãe chorando por mim quando me visitava, não entendendo o por quê de sua boa moça estar ali. E volto ao local ao qual me encontro. O lugar de mim e Mário... Encostada no coqueiro de nossos romances. O coqueiro torto na areia, o único torto em meio a todos os outros perfeitos. No dia em que saí da prisão por meu erro de tantos anos atrás... Saindo da prisão mais cedo pelo excelente comportamento. E por quê? Por que tive de viver até esse dia? Por que tive de ser levada pela insanidade logo naquele dia? Por que paguei por meu erro apenas com uma prisão? Mário pagou com a vida... Com aquela vida de moço rico. Talvez eu o amasse mesmo como imaginava... E matei quem amava tanto... Como? Fatídico dia daquele alvoroço... Olho para minhas mãos miúdas, não acreditando como foram capazes de cometer tal ato. O choro estava preso, e eu já estava tão fria e triste por tantos erros, desacreditada de mim mesma, que tudo parecia definhar ao meu redor. O que eu era? O que poderia ser? Uma assassina. O sangue de Mário sempre estaria em minhas mãos. Sempre, não importa quanto tempo passasse. Eu o havia matado. Vi em minha memória cheia de lapsos.

E as lágrimas vêm como um lamento profundo. Como um alívio de tantos anos, como uma libertação em um abrir e fechar de olhos. Lágrimas simples e naturais. Então depois de tantos anos, enfim posso chorar amargamente em meio à lembrança triste e infeliz, salpicada em escarlate. Olho para o horizonte, e admiro o céu alaranjado, com o sol a espreguiçar-se em si mesmo, superado da chuva de ainda há pouco. O arco-íris acima das folhas do coqueiro selava o compromisso entre os cosmos naturais. Procuro o pequeno pássaro e lá está ele, de volta ao coqueiro. Olhava-me curiosa, e eu estampava toda a minha comoção. Volto a admirar seus olhinhos, desta vez com tudo borrado pelas lágrimas. E podia ver e admirar apenas a sublime negritude de seus pequeníssimos olhos.