sábado, 11 de janeiro de 2014

O vagabundo.

Era só o que era sabido: ele era um vagabundo. 
Cabelos despenteados e queimados pelo sol, calças rasgadas, camisa imunda e uma barba a aparar. Não devia ser muito mais velho que Renato, contudo, sua aparência informava o contrário. A única coisa que parecia valer algo junto dele, era um reluzente saxofone. Como aquele, Renato nunca vira. Era preto e dourado, tão polido quanto o mais brilhoso dos troféus em sua estante. Se às vezes Renato punha algum trocado naquele chapéu esfarrapado ao lado do vagabundo, era por admiração àquele instrumento. Mais belo impossível. Certo dia, o vagabundo parou de tocar para cantar. Cantou, e cantou e ninguém parou para ouvir. No dia seguinte, Linda, prima de Renato, comentou sobre a letra da música que, julgou o parente, ela devia ter sido a única que parou para escutar. Se o vagabundo tocava a mais suave e prazerosa das melodias, cantava a mais infernal das músicas. Sua voz era rouca e crespa. O que se espera de um vagabundo. 
Nunca Renato pensaria em ter algo com aquele vagabundo. Bem, nunca até aquele dia. 
Aquele dia, em especial, Renato estava cansado e sonolento por ter chegado tarde da competição na noite passada, por isso fez algo parecido com um escândalo quando acordou e viu o vagabundo em pé, no seu quarto, observando com atenção cada troféu da estante de vidro. 
Perguntou como o cara tinha invadido sua casa, o que queria, exigiu que saísse. Falou tão rápido e grosso que não deu tempo ao vagabundo para que este formulasse alguma resposta. Respirou algumas vezes e então se acalmou. Olhou novamente para o vagabundo que exalava um odor um tanto... Desagradável. O homem retribuiu com uma expressão inocente de um cachorro faminto. Pediu ajuda. Disse que tinha perdido o seu saxofone por culpa dele e dos amigos. Renato tentou se lembrar de quando isso havia acontecido. O mendigo contou ter sido na noite anterior, quando voltavam de carro, cantando como moçoilas bêbadas.
Tanto falou, tanto fez que acabou convencendo Renato apelando pelo lado culpado do homem. Assim os dois foram, no carro de Renato, até o local onde supostamente ele e seus amigos teriam feito o mendigo perder o sax. Era uma estrada onde havia mato para os dois lados. Saindo do bairro para o centro. Era bem possível que tivessem passado por lá noite passada, a competição tinha sido num ginásio que ficava no centro. Havia uma marca de pneu no chão. Uma freada brusca. Bem possível. Marcos realmente dirigia como um bêbado mesmo quando estava sóbrio. Alta velocidade, parada repentina e quase arrancando as cabeças dos passageiros de seus respectivos ombros. Mas como ele tinha sido o único a não beber, a direção tinha ficado por sua conta. 
Procuraram pela estrada, pelas beiradas e até se arriscaram mais para perto do mato. Não havia nada reluzente por ali. Renato lembrou de perguntar inúmeras vezes se realmente tinha sido ali. O vagabundo confirmou tantas vezes quanto foram necessárias. Apenas acharam o brilho perdido no matagal quando o céu estava se pondo e o estômago de Renato rugia mais alto que sua consciência. 
-Lá está! - gritou o homem já cansado de tanto procurar. Não aguentava mais ter por companhia apenas um mendigo malcheiroso por todo esse tempo. 
Renato lançou-se para dentro das folhagens sem pensar duas vezes enquanto o mendigo não movia um músculo, e, ah, como poderia? Renato não estava errado sobre aquela luz brilhante no meio do verde, era realmente o saxofone negro e tão polido quanto seus troféus, contudo, agarrado a ele, estava um homem malvestido e sujo de terra e sangue, o corpo do mendigo vagabundo sendo comido por pequenos e grandes bichos jazia entre as folhagens da beira da estrada. 
Depois daquilo, Renato nunca mais viu o vagabundo, nunca mais correu ao ver coisas brilhosas, nunca mais parou naquela estrada.