domingo, 31 de março de 2013

Não apenas teu fulgor


Observo-a passar, sentindo o odor forte de sua ousadia e atrevimento. Aquele andar veemente, seguro. Os saltos batiam no chão formando uma melodia única. Toc-toc-toc, está vindo até mim... Mulher minha, e quando eu bem entender. Dá-me sua primazia na noite, com o luar a nos regar, com as estrelas a espiar-nos. Seus cabelos revoltos presos em um coque no alto da cabeça, deixando seu pescoço desnudo, vulnerável. A brisa fria noturna brinca com os curtos fios de sua nuca pálida. Imagino meus beijos lhe invadindo, arrepiando sua pele. Bela, tão bela... E o que  importa; minha. Suas pernas longas ainda se dirigiam até mim, em passos largos. Pernas translúcidas de tão puras, extraordinárias. Carne pendendo, desafiando a força cósmica da Terra. Pele macia sensível ao toque ardente da minha língua. Molhada, úmida, esperando por meu toque; ansiando. Sim, bela, venha até mim. Um caminho perigoso, mas é ela quem sempre vem até mim. Enfim, chega, maquilagem carregada escondendo sua fadiga, seu desgosto. Percebo logo que esteve chorando, os seus olhos pareciam fendas assustadas, abertas demais e cheias d'água, resquícios de lágrimas. Um impulso de protegê-la, de afastá-la dessa sujeira, do nojo e escarro da sociedade. Ela, por fim, não aceita minha proteção. Por que tens de ser tão fria, bela? Esqueça as mágoas, a imundície, o escárnio e entregue-se à paixão... Amor puro, brasas que lhe queimam, transbordando em gozo. Mas quando está comigo, esquece-se do nojo, da rotina árdua. Pelo menos deveria esquecer-se... Porém faz parte do teu fingir? Quero tua sinceridade... Quero mais que teu prazer em minhas mãos, mais do que teu gozo em gemidos inefáveis. Não quero seus sussurros em meu ouvido, um clamor para a volúpia do desejo. Quero mais que isso... Bem mais. Quero que seja minha por completo, não apenas por noites... Não apenas ver-te dançando em mim, com os seios fartos a balançarem em uma coreografia incrível. Preciso aliviar essa sua tristeza, sua dor profunda causada pela labuta diária... Quero suas verdades, sinceras palavras. Não apenas o erotismo, mas seu amor. És capaz de amar, bela? Entregue-se mais... Sei que posso lhe ter e satisfazer. Mas como confiar em homens tendo em vista seu estereótipo com os tais? Tão ótima em fingir... Bela hipócrita, falsária. Esperarei pelo seu sentimento, sim. Acender seu fogo mas mais profundamente... O fogo que pode arder em seu coração. Mais beijos, seu romance. Sei que podes dar-me doçura. Abrir suas pernas por confiar em mim plenamente. E em uma dentre tantas, passarei mais uma noite com ela, neste hoje. E no raiar da manhã levará os tais papéis de valor. Leve consigo, eu permito... Mas leve-me também, bela. No seu frio coração levar-me-á um dia, esta bela, minha bela meretriz.

domingo, 24 de março de 2013

O escárnio da solidão


Me perco na imensidão de mim mesma, na solidão que me invade, que procura o meu lado mais íntimo. Tudo sem nada ter, o preto no branco. A falta da criatividade, do lamento, da dor, a miséria que corrompe a bondade. Paradoxos criados, erguidos como muralhas, separando-me do mundo, a ilusão de poder tê-los em mim e afastar-me da solidão. A tristeza; e se eu realmente quisesse ver tudo nublado? Não me deixam pensar, querem impor suas vontades. Prefiro o isolamento, retrair para sentir, tê-los ao meu lado. Criar uma barreira... Esquecer o sol entre as montanhas, as gaivotas no céu, a imensidão do mar, a grama verdejante, convidativa. Esquecer o belo, o prazeroso. Sentir a dor, e viver com ela. O simples, o cru e nada mais além do vazio. O nada, o desagradável. Eu posso lhes escolher... Posso escolher parar, não rejeitar mais. Sentir o sofrimento em mim, tê-lo, poder desejá-lo. A tortura explícita que causa minha miséria, sentir prazer nela. A rejeição, a maldade, o ódio, o desagrado, a arrogância. O pecado, a minha inveja, a nossa vingança, o que é destratado. Vamos, criem suas próprias barreiras com o escárnio, suas muralhas fortes, com as frias paredes de concreto nos isolando, nos angustiando com suas limitações. A falsidade de um sorriso, de um olhar. A alegria de poder enganar, a pura trapaça. A nua e comovente solidão. Deixo-a entrar, permito a melancolia que me traz, a tristeza. Invadindo as portas do meu duro coração trazendo frieza. As facetas da rejeição, quero senti-las em mim. O pior dos piores, o podre e o insensível. Não quero lamentar, mas apenas sentir. O belo não me atrai e quero poder confiar no medo. A melancolia de poder estar só, um abraço dentro de mim mesma. E enfim, sentir o desprezo e escarro do mundo, a maldade sem máscaras. Apalpar o que é mau, enxergar o escuro. A queda incansável dentro de mim, as próprias profundezas de minha mente cativa. Melancólica percepção do pensar, oh, ser humano crítico, belo e questionador. Sozinha no abismo encontro-me, e quem poderia se importar? Constantemente desprezada, isolo-me na confusão dos pensamentos. A queda na solidão. E o que eu poderia perder? Perder a sociedade que finge se importar e amar. Hipocrisia que me enlaça, e então o fim. Eu posso escolher a solidão e o fim do belo. Cair sem nada possuir.

domingo, 17 de março de 2013

Uma queda sem cor


A minha mão escarnecida, sedenta, acende teu corpo, quer achar sua rosa, sua flor. Procurar por ela, achá-la e finalmente se deleitar, em explosão de sabores, (doces) sensações e amores. Dez segundos com sua flor, minha jovem, dez pequenos segundos de deleite em mais fina joia. O amor que brota dos meios teus; nasce, cria raízes que chegam até a mim puras, gloriosas. Eu as transformo em fogo, brasas. Brasas de paixão; emocione-se pelo gozo do sentimento. Bela cor, meu amor; enfim fazer-te sorrir; a quero. Anseio por tua presença cativante, incessante. O odor da meiga flor, a que me presenteia quando é tocada. Chegar lá e ficar, o prazer e gozo de tê-la em meus braços. Linda quando descansa, confiando em mim seus medos e ensejos. Linda todos os dias, com o charme único que transmite com seu brilho nos olhos. Minha amada, por que pestaneja? Você confiava e eu a tinha comigo. Não lhe reconheço mais e a cor do seu sorriso se foi, escondeu-se nas sombras, na confusão dos sentimentos. Você foge, se esconde do meu olhar inquisidor, que pergunta silenciosamente o quê, por quê... E antes que eu percebesse, você não estava mais lá. Tentou-me, mas enfim desabou da corda bamba, "sinto muito, não sei se te quero como antes... Não foi por querer". E eu caio, desabo. Não sei o que esperar de você, do mundo. Minha pequena flor não se abrirá mais para mim, e por quê? Como devo aceitar, o que suportar? O peso da rejeição nas costas. E eu preciso construir a dor para meu consolo. Enlouquecer por não tê-la. "Sinto muito", e eu lamento. Lamento por minha dor e por precisar dela; querer sofrer. Destruí-la e recriá-la, com sua voz em minha mente, o plano de fundo de suas palavras repetidas incessantemente, no vinil ao canto. Isolar a dor para tê-la de volta; ilusão, sim, doce ilusão. Caio nas sombras e não vejo o por quê de parar; qual seria a razão? A angústia de ter que suportar suas palavras para sempre; seu abandono. E o som da sua voz que lamenta enebria minha mente e meu coração. Uma queda onde se martiriza, mas onde se é capaz de sentir. Quando se destrói por dentro, em pequenos pedaços sem cor.

domingo, 10 de março de 2013

Deu-me a liberdade do adeus


O fruto do teu escarro, do teu sofrer. Do seu lamento que despreza como se pudesse se importar. O pesar de um amante, de um ouvinte, um mero espectador dos breves fios, os fios da liberdade. Aquele que enfadonha pela hipocrisia. Palavras tolas que um dia me prometeram liberdade suficiente. Você desprezou e diz ser capaz de consolar. Você destruiu e diz ser capaz de amar. Fraca, vulnerável, fui imposta para seus caprichos, conquistada. Tornei-me perdedora, a perdida. Aquela que confunde e não encontra, a que cria expectativas. Eu queria a liberdade, mas também as algemas fortes de seus braços. Criei temores, uma paixão. Fiz de tudo para erguê-la e deixá-la transparente, perceptível. Fingir um amor, a ilusão de que o sentimento é real... Mas não era o suficiente, era preciso mais entrega. O medo não deixou e eu não quis me envolver. Envolver-me em seu colo, abraçar-te junto a mim. Absorver seu cheiro, prolongar seu toque. E fim. Sem envolvimentos, sem lágrimas e sofrimento. Almejar a verdadeira liberdade e seguir em frente, sem suas mentiras. Palavras torpes, enganosas. Mas do teu escarro, do teu desprezo, da tua desgraça, sem virtude alguma. A hipocrisia do teu brilho e das promessas que me fez. Eu enfim enxerguei e pude ver o que não me relatava. A confusão de seus lábios e do seu coração. Não lhe culpo, mas posso lamentar pelo fim. Um eterno fim incapaz de se dissipar. Muralhas de silêncio, evitando golpes fatais. E vou seguindo em frente com a liberdade que conquistei, a que tanto almejo, a que sempre desejei. Sem adeus, meu querido, sem despedidas, estou consciente da hora já bem passada, um atraso desnecessário. Os lírios me esperam, e seu odor me encanta. Obrigada pelo escarro, agradeço seu lamento, lhe recompenso por sua desgraça. E então, o adeus.

domingo, 3 de março de 2013

Temível segredo



E então, como de costume, ela afaga os cabelos dele, sentindo a maciez, o doce toque dos fios em seus dedos. Mas ela não quer apenas isso, ela não quer... Será que ele não percebe...? Amigos talvez? Não é possível parar o sentimento quando se inicia. Ela se culpa por isso, ela não gostaria de sentir esse fulgor em seu peito, dentro de si; palpitações as quais não é capaz de controlar, de parar. Ele, alheio ao sentimento, não percebe, não repara; os pequenos sinais que lhe são expostos. Amigos, amigos, ele quer apenas sua amizade. Por que não percebe, ó, bem-querer? Ela se perde dentro de si mesma, não quer sentir, não pode sentir... É vulnerável demais. Fraco demais. Por que deve-se sentir sentimento? Como começou, aliás? O início de uma amizade, o início de um sentimento? Apaixona-se não pelo olhar ou aparência, mas pela forma como se lida com as coisas, como se porta diante das situações, sua personalidade, suas qualidades, seus defeitos, ele. Ele em si, sem se importar com o que não lhe agrada tanto, mas aceita, aprende a amar. Amar...? Uma palavra tão forte, ela, será real, será possível? O amor apenas; senti-lo, criá-lo, almejá-lo, tê-lo. Ela pode criá-lo, pode construí-lo, mesmo que seja edificado em pilares de areia, que demoradamente caem, de grão em grão. Ele finge não perceber, talvez? Ele não é capaz de perceber, ele não percebe. Por quê? Por que deves sofrer, bela ela, no seu temível sofrimento silencioso? Culpa-se, destrói-se por dentro. A cada segundo, a cada minuto. A culpa de não tê-lo, e querer tê-lo. Tê-lo consigo não apenas como amigo, não apenas como companheiro, mas que se possa compartilhar suas emoções por serem recíprocas. O amor se esconde, escolhe por sua própria vontade, causa doença, enferma; mas, quando quer, a seu bel-prazer, decide escolher alguém em especial... Ele simplesmente decide. E o que fazer com isso, bela? Aceite o amor que lhe é dado, o amor por ele que lhe é oferecido. Amigo que pode se tornar amante, seu amante... Quando ele poderá perceber? E até quando esconderá dentro de si mesma esse temível segredo? Imperceptível, incorruptível. A paixão. Alimenta a cada olhar, a cada sorriso. Ela o vê como algo mais, e ele ainda não é capaz de perceber. Quiçá descobrir, ele, em seus pensamentos mais íntimos... Porque, ela, com sua coragem, não lhe é capaz de admitir, de expôr a verdade. Ame-o, mas ame-o em silêncio. Até quando suportará seu sigilo, bela ela? Suportará até quando puder, seu temível segredo guardado estará em seu enamorado e segregado coração.