domingo, 3 de novembro de 2013

Ossos do infinito


Mariana.
Dezoito.
Acidente de carro.
Andava pela rua, bêbada, às quatro da manhã,
Sozinha.

Hugo.
Oito.
Afogado no rio de sua cidade.
Tentava tocar o chão das águas,
Tocar os belos cascalhos.

Ar...
Pulso.
Pulso.
Respirar!

Cecília.
Vinte e oito incompletos.
Overdose.
Pó branco, mais um pouco apenas,
Seu amante, seu frenesi, “sou forte”.

Vitor.
Quarenta e oito.
Câncer repentino.
Sugou sua vida, sugou seu ar,
Em um hospital esquecido.

“Em memória dele
Porque jaz aqui
Seus restos mortais
Suas cinzas encarnadas
Para viver
Da morte
Descansar em paz.”

A paz longínqua de suas vidas
O oito infinito
Do sobrenatural
Limite encarnado
Da cor dos olhos
Carmesim

Tão infinitos...
E por que tudo tem que ter um fim?
O fim de seus corpos putrefatos
Que exalam
O odor que tinham
Em suas medíocres vidas

Vidas de quê?
Buscavam cores
As cores do jardim
“Porque já disse, todos somos
Infinitos!”

Lembraram o cheiro e o gosto
O sabor do doce explodindo na boca
Ou do sangue escorrendo pelo nariz?

Sentiram a garganta queimar
Um fogo dentro
Um dragão espumando e lutando
Pelo simples, tão simples,
Respirar?

Desenharam no ar
Os seus sonhos
Os seus medos
E buscaram o infinito
Apenas o horizonte dele.

Encontraram-se
Abraçaram-se
Choraram
Lamentaram
Perceberam
O
Simples
Infinito
Por que jazem?
Por que lamentam?
Por que choram?
Lacrimejantes olhos
Hoje furos
Fundos buracos
Órbitas sem carne
Ossos

Poeira insensata

E o sentir da pele macia?
O apalpar dos corpos
Do amor?
Aos oito somado aos dezoito
Dos vinte e oito
Menos quarenta e oito
Porque sempre buscaram o infinito

Breves afinal
Porque buscaram o infinito
E quem sabe o encontraram?
Pois cá estou eu a narrar
A procura dos ossos pelo sucessivo oito

Acharam e negaram
Aquele bendito ciclo natural
Sem rimas
Sem brevidade ou métrica
Apenas o final
Da simples e mais que singela
Lei universal

“Veja seu epitáfio.
Confirme seu nome completo.
Seu nascimento, como uma estrela,
Um raiar de luz?
E o bendito dia da busca do infinito,
É essa sua cruz,
O seu sim da morte, amigo?”

“Jaz você, amigo,
Naquela tumba fria
Tão sozinha
Tão escura
Tão você
Não percebe, amigo?
É o seu interior.
Foi sua busca pelo infinito.
Foi apenas
O seu fim.
Um fim apenas?
O sim do seu ponto ferindo o final.”

Vislumbra.
Sinta
O seu feliz horizonte
O fim da sua carne
Início de seus ossos
Prazer, infinito.
Buscaste o oito,
Encontraste...
É você.

2 comentários:

  1. "O horizonte é para nos fazer caminhar", lembrei desta frase ao terminar de ler.
    Adorei a reflexão.

    Amei Amei *-*

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    1. Ai, Alef, meu escritor-mor, lindo, obrigada! Fico muitíssimo feliz que tenha gostado. E os teus textos? Quero voltar a afogar-me neles, *-*.

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