Passavam-se duas semanas desde que chegara ali e já não podia mais se deixar esperar.
Rui Alexander era um daqueles exploradores que percorria todo o mundo em busca de uma nova aventura para viver e contar. Dessa vez, tinha sido atraído por uma lenda sobre crocodilos gigantes, que devorariam um robusto homem adulto em uma só mordida. Agora já não era esse o motivo que o mantinha preso ali.
Assim que chegara, o homem se deparou com um instigante boato sobre uma bela mulher à beira do lago. Nunca alguém era capaz de ver seu rosto, apenas seus negros cabelos. Tão escuros que - assim como contara Juan, o líder do acampamento-, eram quase azulados. Foram enviados homens para investigá-la, pois depois de descoberta, nenhum deles a deixaria. Segundo rumores, ela era tão linda, tão encantadora, que sua simples presença embriagara todos os enviados, deixando que apenas um voltasse com a notícia da morte dos outros dois companheiros.
-Pois eu a vi, meu senhor. - explicara o sobrevivente à Juan - era linda como só a deusa Afrodite poderia ser. Tinha a pele tão corada quanto a dos nativos que rondam a floresta em busca de caça com flechas e lanças. Mas não era tão como eles. Não. Esta tinha cachos nos cabelos. E todo o tempo não prestou atenção à nossa presença. Não tentou nos afastar nem se aproximou. Mulher linda, mas fria. Não importava o quanto a chamássemos, ela não virava o rosto. Tentamos fazer contato, pois Horácio já caía de amor por ela, e pensava já em desposa-la. Sabia eu que o senhor seu pai nunca concederia tal imprudência. Mas o rapaz, teimoso, não ouviu. Devo assumir que o que me salvou foi minha covardia, perdoe-me senhor, mas não fui capaz de chegar mais perto. A mulher era tão linda que me causava arrepios, e já havia aconselhado a minha esposa "Não chegue perto de mulheres perigosas, estas são capazes de até veneno soltar". Mas não foi aquela mulher quem os apunhalou, e sim, três dos maiores crocodilos que já vi em minha vida. Bem.. Não pude vê-los com clareza, mas os vi. Tinham bocas medonhas e suas caudas eram tamanhas que seriam facilmente confundidos com tubarões. Mas não há tubarões em lagos. Não me atrevo a voltar lá. O pobre do Horácio não pareceu ser o suficiente para alimentar metade do estômago de dois daqueles monstros.
Juan tentou perguntar sobre a moça. Mas o pobre homem não soube responder. Estivera assustado demais e logo foi mandado para a sua casa descansar nos braços da sua esposa. Antes de ir, este ainda aconselhou aos companheiros que o fizessem também, pois, mais cedo ou mais tarde, uma segunda tragédia aconteceria e, depois disso, não pararia mais,
Os outros homens ficaram assustados o suficiente para manter em sua dieta apenas carnes vermelhas e frutas, bem longe do lago onde a mulher e os crocodilos foram encontrados. Mas Rui, pelo contrário, prometeu-lhes uma bela quantidade de peixes e ainda resolveria a mistério da bela moça com que Horácio tanto desejara. Não ansiava por amor nem alguma luxúria. Só o que aquele homem carregava em seu valente coração era uma sede inesgotável por aventuras, conhecimentos e experiências. Conseguiu que um homem o guiasse até parte do caminho, mas nem sua boa lábia foi capaz de convencer o rapaz a ir com ele até o final da trilha que levava ao lago.
Já passava do meio dia quando Rui chegou ao local. A superfície da água era lisa como vidro. Cristalina como as águas de uma banheira rasa. O lago refletia ardentemente o brilho do sol e iluminava tudo à sua volta. As árvores bem nutridas e carregadas de frutos maduros e suculentos, algumas flores silvestres belas e destratadas pela natureza, algumas rochas cravadas às margens, o colorido e místico fundo do lago e, por fim, a bela e esbelta mulher empoleirada na mais baixa e lisa pedra.
Esta era a mais linda de todas as belezas que Rui vira em toda a sua via. E ele já vira muitas coisas na sua vida. Vira o nascer do sol, ao norte, quando as luzes refletiam nas molhadas paredes de gelo formando um grande e belo arco-íris; vira a danças das baleias de um navio pesqueiro a milhas de sua terra natal, vira milhares de pássaros voarem em direção ao sul no fim do outono, vira o mais belo dos jardins floridos com as mais diversas cores de rosas que já vira em toda a vida, mas nada se comparava àquela mulher. Ela tinha a pele num tom amendoado que apenas uma vida de bronzeamento poderia proporcioná-lhe. Tinha negros cabelos que esvoaçavam ao vento livremente sem formarem nós entre si, tinha a postura que nem mesmo uma rainha imitaria com tanta elegância e o que mais o surpreendera: Ela não tinha pernas.
Logo em baixo de sua nua cintura, ela tinha uma escamosa cauda castanha que quase fundia com o tom de sua pele, brilhava refletia a luz do sol como se tivesse sido polida e feita em metal. Oh! Como não ligara os pontos antes!? Rui encontrava-se diante da famosa rainha dos mares! Uma sereia! Mas tinha que contar isso ao mundo! E como tinha! Escreveria um livro com seu nome. Tinha que descobri-lo. Tinha que saber mais sobre sua vida!
E sem mais esperar, o homem jogou seu fardo no chão e correu até a bela mulher. E como se não tivesse tido sorte o suficiente, ela virou para encará-lo. Tinha o rosto sereno e sonhador. Lembrava um felino. Feições suaves e inocentes. Puro e curioso. ele foi obrigado a parar para contemplá-lo. A moça sorriu com a cara de bobo do aventureiro e disse algo numa língua que ele nunca ouvira antes. E mesmo sem entender, ele desejou que ela continuasse a falar, só para que ele pudesse ter o prazer de ouvir sua voz novamente.
E estava tão feliz, que podia morrer ali mesmo.
Ah, Rui, como não deveria tê-lo pensado.
Como se ela tivesse ouvido seus pensamentos, a mulher ligeira com uma corça, pulou na água, nadou habilidosamente como uma cobra, veloz como um peixe-espada cortando a água com tanta facilidade com que cortou a pele do jovem abobado. Ainda vivo, ela o puxou para longe da superfície, para o fundo, que já não parecia tão receptivo quanto antes.
Eu queria possuir pernas, assim como você, ele pôde escutar, Queria eu, também, poder amar, assim como tantos outros que aqui apareceram, mas não importa o quanto eu queira, não sou uma de vocês.
A voz era linda, assim como a coisa que o levava cada vez mais para o fundo. Cada vez mais para longe. Mas não era nisso que ele estava interessado. Havia coisas mais importantes que os sentimentos de um ser anormal. Tais coisas como: como ela era capaz de respirar em baixo d'água? Possuía ela brânquias também? Sempre chamava as pessoas para si assim? Era ela e sua espécie quem matava os marinheiros? Poderia ela entrar num barco e desamarrar um homem para levá-lo para o fundo do mar?
Haviam muitas respostas que o interessavam e lhe seriam úteis, apesar de ter consciência que morreria. Apesar de tudo, Ele só quis, naquele instante, saber a resposta de uma. A única que ele deixaria como último desejo não concedido, o nome de seu livro.
E qual é o seu nome? - perguntou ele em meio aos engasgos e sob a pressão d'água em seus ouvidos. E mesmo com a tontura e atordoamento, ele lembrou da última palavras que ouviu em vida:
Iara.

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