terça-feira, 4 de março de 2014

Palavras notadas


Com seu lirismo coberto de devaneios, punha a pena na tinta e escrevia... Escrevia por segundos inteiros de opressão morosa, porque sua própria Mente o oprimia. “Que fazes tu, ó, Mente? Decida-se. Era seu cabelo macio como a seda das Índias ou era apenas impressão sua? Colocaria sua maciez ou seria esta uma fuga para a cafonice?” E em resposta, a Mente, da forma mais suave e irônica possível, só dizia um “ora pois, só escreva, a obra é minha”. Quando pôs-se a escrever, logo seu nome completo, as Palavras o viram como uma porta em especial. “Uma forma de sermos notadas, olhem só. Nosso mais novo escravo”. Escolheram-no. E o Escritor, com seus poucos anos de idade, era só alegria. Escreveu seu primeiro pequeno texto, falando apenas da grandiosidade do sol. Mas ah!, que belo! Viu que aquele era seu mais novo ar para respirar. O oxigênio de que precisava não estava no céu que descrevia com tanto afinco no seu primeiro texto, mas no próprio CÉU. A simples e bela palavra de três letras, porque sentia-se que era completamente realizado apenas com a menção dela no papel. A felicidade era tamanha que continuou a escrever. Foi simplesmente amor a todas as vistas. Por vezes amigo ou amante, às vezes se dava por inimigo. “Mas não quero você, Amor. Eu troco por Paixão. É tão semelhante”. E as teimosas Palavras apenas diziam, “escreva Amor. É ele quem queremos. Paixão não é o suficiente”. O Escritor, raivoso, escrevia Paixão e mal se dava conta de seu erro. Não queria mimá-las, dizia como desculpa. Mas, por fim, era tão atormentado por elas, que no fim acaba por perceber que Amor casava-se perfeitamente no texto no qual tinha escrito. Estava preso às Palavras, mas as amava com todas as suas forças!

Por conta delas ganhou sua esposa, porque sabia descrevê-la como ninguém. Tão metido consigo mesmo, eram as Palavras que a amava por mais, porque era tão doce e meiga que precisava estar ao lado do Escritor. A Mulher incitava a poesia e ao lirismo, e consequentemente a uma obediência maior às Palavras. O Escritor, já tão possuído pelas duas fraquezas, escrevia e só dava gosto e prazer a suas senhoras. Era feliz, era sua única certeza. Vivia por elas, e assim lhes dava alegria.

Mais uma vez a pena na tinta, e as Palavras vinham, escreviam-se como se tivessem vida própria. Eram escolhidas pela perspicaz Mente. E aquele Escritor, escrevendo por enormes séculos, cansava-se, morava-se, mas era uma paixão que não entendia. Eram aquelas Palavras que o libertava, porque se não as escrevesse, a mente o oprimia. Era como um TOC. Um transtorno obsessivo compulsivo sem comparações. Sendo esta ideia fixa que assalta a Mente com persistência, as Palavras punam-lhe como escravo. “Escreva, somente escreva. Nós que damos vida a sua gloriosa Mente”. O que restava do pobre Escritor? Escrever e escrever, porque só assim se libertava da opressão. A paz vinha nas Palavras escritas, e o conforto vinha das Palavras, belas Palavras que, sabe-se de lá sua origem, mas vinham, simplesmente apareciam! Vinham tão suavemente, mas que de repente devastavam tudo. Queriam ser notadas, e para tanto, precisavam estar escritas. Não bastavam estar na Mente, mas queriam estar externas. Queriam viver nos papéis A4, e compostas pela tinta. Queriam ter sua essência de tinta, por mais que não conseguissem expressar sua verdadeira essência. “As Palavras precisam ser notadas”, comprovou o Escritor oprimido. “Sou seu escravo, e nada mais. Estejam em mim e façam parte da minha mente, pois quando levo-as para o mundo, liberto-me. Sua opressão me fascina, e já estou preso a vocês. É simplesmente, queridas Palavras, a melhor escravidão do mundo. Possuam-me, nada mais. Serei seu oleiro, e as levarei ao mundo para serem tomadas e não mais esquecidas. Na imensidão do planeta racional, não mais existirão, mas farão de sua existência, a eternidade escrita”. E o Escritor apaixonou-se por elas. Viveu com elas, amou-as como a menina dos seus olhos. Foi instigado por mais, e mais.


Nos seus oitenta anos e sete meses, as Palavras o consumiam tanto, e sua Mente abrigava tantas mais, que mal lembrava de todas. Estava por querer dar pane. As Palavras, chorosas e aflitas, queriam ainda viver. “Ele está para morrer, não podemos ir junto com ele!”. O Escritor as acalmava, e afirmava que estava forte para mais. Não poderia largar o seu vício, e sem as Palavras ao seu lado, morreria logo bem depressa. A Mulher, a esposa tão presente, uma das senhoras da vida do escritor, vislumbrando a situação, chorou. Chorou como nunca antes, e comoveu as outras senhoras. “Ficaremos. Nosso escravo precisa de nós, e estaremos com ele até o fim”. O Escritor nunca esteve tão bem. Suas senhoras, todas presentes, precisavam tanto dele quanto ele, delas. Percebeu o sentido, e assim poderia ir em paz com um belo sorriso nos lábios. Ainda em um grande devaneio, estava como que vivo, mas pronto para partir. “Daremos o maior presente de todos, grande Escritor. Por isso serás Palavra, como nós. Só assim serás eterno, e viverás esta alegria conosco. A cada vez que alguém ler teu texto, viverás. A cada vez que chorarem por teus textos, chorarás com este alguém. Felicitarás, amarás, rirás como nunca antes. Navegarás por águas nunca antes navegadas por homens, pois serás Palavra. Palavra sucinta, eficaz. Completarás outros tantos, e tornarás mais homens em Palavras. Esta será tua recompensa em te fazeres escravo de nós. Serás como nós, pois o coração da tua maior senhora nos cativou. Vivas, e para sempre”. O Escritor, ainda em seu grande devaneio, escutou as Palavras. Seu sorriso abriu-se, tão suavemente, tão singelo e puro, de tão pouco esforço... E então foi-se. Foi-se para além-mar. Foi-se como homem, e voltou como Palavra. A Mulher chorou, certa disso. A senhora esposa chorou, mas riu em seus textos. Sentiu o beijo doce do marido em cada leitura dos textos do Escritor... Exatamente como as Palavras haviam prometido. E amou-as, como nunca antes havia amado. Assim seu marido, seu belo Escritor, pulsava como sangue nas veias, respirando, vivendo, existindo. Apenas mais uma Palavra na imensidão do Universo das Palavras, todas ansiando para serem notadas

sábado, 11 de janeiro de 2014

O vagabundo.

Era só o que era sabido: ele era um vagabundo. 
Cabelos despenteados e queimados pelo sol, calças rasgadas, camisa imunda e uma barba a aparar. Não devia ser muito mais velho que Renato, contudo, sua aparência informava o contrário. A única coisa que parecia valer algo junto dele, era um reluzente saxofone. Como aquele, Renato nunca vira. Era preto e dourado, tão polido quanto o mais brilhoso dos troféus em sua estante. Se às vezes Renato punha algum trocado naquele chapéu esfarrapado ao lado do vagabundo, era por admiração àquele instrumento. Mais belo impossível. Certo dia, o vagabundo parou de tocar para cantar. Cantou, e cantou e ninguém parou para ouvir. No dia seguinte, Linda, prima de Renato, comentou sobre a letra da música que, julgou o parente, ela devia ter sido a única que parou para escutar. Se o vagabundo tocava a mais suave e prazerosa das melodias, cantava a mais infernal das músicas. Sua voz era rouca e crespa. O que se espera de um vagabundo. 
Nunca Renato pensaria em ter algo com aquele vagabundo. Bem, nunca até aquele dia. 
Aquele dia, em especial, Renato estava cansado e sonolento por ter chegado tarde da competição na noite passada, por isso fez algo parecido com um escândalo quando acordou e viu o vagabundo em pé, no seu quarto, observando com atenção cada troféu da estante de vidro. 
Perguntou como o cara tinha invadido sua casa, o que queria, exigiu que saísse. Falou tão rápido e grosso que não deu tempo ao vagabundo para que este formulasse alguma resposta. Respirou algumas vezes e então se acalmou. Olhou novamente para o vagabundo que exalava um odor um tanto... Desagradável. O homem retribuiu com uma expressão inocente de um cachorro faminto. Pediu ajuda. Disse que tinha perdido o seu saxofone por culpa dele e dos amigos. Renato tentou se lembrar de quando isso havia acontecido. O mendigo contou ter sido na noite anterior, quando voltavam de carro, cantando como moçoilas bêbadas.
Tanto falou, tanto fez que acabou convencendo Renato apelando pelo lado culpado do homem. Assim os dois foram, no carro de Renato, até o local onde supostamente ele e seus amigos teriam feito o mendigo perder o sax. Era uma estrada onde havia mato para os dois lados. Saindo do bairro para o centro. Era bem possível que tivessem passado por lá noite passada, a competição tinha sido num ginásio que ficava no centro. Havia uma marca de pneu no chão. Uma freada brusca. Bem possível. Marcos realmente dirigia como um bêbado mesmo quando estava sóbrio. Alta velocidade, parada repentina e quase arrancando as cabeças dos passageiros de seus respectivos ombros. Mas como ele tinha sido o único a não beber, a direção tinha ficado por sua conta. 
Procuraram pela estrada, pelas beiradas e até se arriscaram mais para perto do mato. Não havia nada reluzente por ali. Renato lembrou de perguntar inúmeras vezes se realmente tinha sido ali. O vagabundo confirmou tantas vezes quanto foram necessárias. Apenas acharam o brilho perdido no matagal quando o céu estava se pondo e o estômago de Renato rugia mais alto que sua consciência. 
-Lá está! - gritou o homem já cansado de tanto procurar. Não aguentava mais ter por companhia apenas um mendigo malcheiroso por todo esse tempo. 
Renato lançou-se para dentro das folhagens sem pensar duas vezes enquanto o mendigo não movia um músculo, e, ah, como poderia? Renato não estava errado sobre aquela luz brilhante no meio do verde, era realmente o saxofone negro e tão polido quanto seus troféus, contudo, agarrado a ele, estava um homem malvestido e sujo de terra e sangue, o corpo do mendigo vagabundo sendo comido por pequenos e grandes bichos jazia entre as folhagens da beira da estrada. 
Depois daquilo, Renato nunca mais viu o vagabundo, nunca mais correu ao ver coisas brilhosas, nunca mais parou naquela estrada.

domingo, 29 de dezembro de 2013

O Lado do Príncipe.




Era outro daqueles dias de caça e novamente o príncipe se afastara muito dos demais companheiros de diversão. Havia se distanciado tanto dos outros, que sequer sabia onde estava. Agora se encontrava numa parte desconhecida do bosque. Ele seguiria as recomendações e esperaria exatamente onde estava quando se deu conta que havia se perdido, assim seria mais fácil alguém notar sua presença e achá-lo, e teria o feito se não tivesse ouvido aquela linda voz. Era simplesmente a mais bela que já havia escutado em toda a sua vida. Provavelmente vinha de algum lugar mais adiante. 


Encantado, ele se deixou levar. Fez com que o cavalo avançasse lentamente até ela. Galopou suavemente até encontrá-la. Numa bela clareira, onde era possível ver um castelo de aparência abandonada entre um lindo jardim, ele a viu. Era formosa como uma delicada flor, possuía cabelos negros como a mais escura das noites, e sua pele era branca como a neve. Ele imediatamente se apaixonou pela jovem. Teria chegado até ela e a pedido em casamento ali mesmo se sua ação não tivesse sido interrompida antes mesmo de acontecer. 


Segundos depois de avistar a moça, um homem grandalhão e mal vestido apareceu com um machado em munho. O príncipe se encontrava perplexo demais para poder agir em defesa da amada. Se demorasse um pouco mais poderia ser o fim da donzela, e, para sua sorte, ela foi mais rápida que ele. Mas que vergonha. A jovem em perigo tendo mais coragem que o bem treinado príncipe, equipado com armas para caça e um cavalo branco! Ele não reservou tempo para remorso. Correu atrás do do brutamontes que seguia sua donzela em direção à floresta fechada. "Não corra para aí minha doce donzela, é perigoso demais para alguém delicada como você correr por aí", pensava o príncipe consigo mesmo enquanto galopava bravamente em busca de sua amada.


O jovem não perdeu de vista o grandalhão, e logo o alcançou. Infelizmente, percebeu o príncipe, a jovem não estava entre eles. Desembainhou a espada e estufou o peito antes de ordenar ao homem que parasse de perseguir a indefesa senhorita. Em sua defesa, o homem respondeu que nada havia a jovem feito, contudo, ele devia matá-la por ordem da rainha, que já o havia pagado para tal serviço. Confuso, o jovem príncipe perguntou ainda o motivo pelo qual a rainha iria querer a morte de uma inocente. Para isso o homem não possuía uma resposta. Era apenas um caçador. A única coisa que sabia era que a rainha era muito bela, diziam os rumores que ela se banhava utilizando o sangue das mais lindas jovens que ela podia achar. A presa em questão, era sua enteada, filha do falecido rei daquele local. 


Horrorizado com a crueldade e egocentrismo daquela mulher, o príncipe fez com o caçador um novo trato: pagou-lhe o dobro do que a perversa rainha havia a ele pagado e ordenou que em troca, deixasse a donzela em paz. Infelizmente, o único a fazer sua parte no acordo teria sido ele, pois assim que recebeu o dinheiro, o caçador correu atrás da jovem que já havia sumido na floresta.


Tempestuoso com a traição, o jovem príncipe galopou atrás do caçador maculado. Ah, se o achasse, arrancaria sua cabeça e a empalaria em frente ao seu castelo, junto a dos outros que ousaram trair a família real. 


Não precisou procurar muito, logo encontrou os dois, o desonroso e a moça. O monstro a encurralara junto ao pé de uma montanha e levantava o machado sobre a cabeça. Mas que desgraça! Nunca chegaria a tempo! Àquela distancia nunca erraria uma flecha, mas e se o machado a ferisse quando o homem fosse abatido? 


O aperto no coração do jovem apaixonado durou pouco, pois logo o caçador abaixou a lâmina e a jovem fugiu silenciosa e graciosa como uma gazela. O infamado sentou-se no chão e a observou correr. O príncipe não perdeu tempo, antes que o homem pensasse em traí-lo novamente, arrumou a seta na besta a disparou. A fina lança aterrissou no crânio daquela desprezível figura sentada ao pé da montanha, fazendo de lá jorrar uma cachoeira rubra. 


Que os lobos e os vermes se alimentassem de sua carne. 


Pensando nisso, o jovem seguiu adiante, ao encontro de sua amada. Não a encontrou com a facilidade que desejaria. Silenciosamente, agradeceu ao Rei por tê-lo forçado a ter aquelas aulas de caça. Assim o jovem conseguiu um cervo para sua alimentação assim que caiu a noite, infelizmente, era trabalho das mulheres cozinhar, e mesmo que tivesse acendido um fogo para manter seu corpo aquecido, de nada lhe serviria assar a cerne se esta não tivesse gosto. Se ao menos tivesse algum vinho para disfarçar a falta de sabor do alimento... 


Uma noite se passou e o jovem continuava a procura de sua donzela. Teria ela dormido bem? Teria se alimentado? Teria algum animal selvagem feito dela seu alimento? Sua cabeça rodava e sua garganta o importunava pedindo por água. E ainda havia o seu cavalo que mantinha-se firme, porém apenas um amigo para saber o quanto o outro não se sentia bem. 


Com certa dificuldade, o príncipe achou um rio e lá ambos saciaram a sede. O jovem respirava aliviado quando ouviu uma canção. Esta era diferente, quase um lamento. Desta vez, a trova era cantada por várias vozes masculinas, cortava-lhe o coração ouvi-las. 


Novamente o jovem se encontrou perseguindo o canto. Embrenhou-se entre uma árvore e outra até achá-la. Esta mulher era tão bela quanto a primeira. Um pouco acabada pela idade, porém permanecia bela, extraordinariamente elegante. Talvez ele a desejasse se não já estivesse terrivelmente apaixonado pela donzela que lhe escapara das mãos duas vezes. Também, havia algo estranho na mulher à sua frente. Apesar de encantadora, ela empunhava uma faca numa mão e carregava uma cesta com maçãs na outra. Parecia extremamente contentada consigo mesma. Terrivelmente realizada. O príncipe podia perceber a diabrura nos olhos da mulher. Mas o que lhe chamou a atenção foi o brilho em seus cabelos. Uma fina linha dourada abraçava sua cabeça. Uma coroa. 


Como primeiro pensamento, o jovem se apressou em verificar se a lâmina estava manchada de sangue. "Auto lá!", gritou o rapaz temendo pelo pior. 


A mulher não pareceu perturbada. Olhou para ele e o ignorou, mirou um espelho, que tirara de dentro da cesta contendo maçãs, com sua atenção. Murmurou para ele as seguintes palavras "Espelho, espelho meu, existe, nesse mundo, uma mulher mais bela do que eu?". Antes que pudesse receber sua resposta, o príncipe agiu. Aquela era a rainha. A mulher que mandara tirar a vida de sua amada para satisfazer seus desejos depravados. O rapaz escolheu uma flecha e a empunhou manualmente no seio da mulher. Esta não se surpreendeu e ainda sorriu triunfante para o seu assassino antes de sucumbir. 


Sem esperar mais um minuto sequer, o jovem correu até a origem da sufocante canção. Na aberta da floresta, havia uma casa de teto baixo, baixa como os sete homenzinhos em pé na sua fachada. Mas não foi a altura dos homens nem da casa que chamou a atenção do jovem apaixonado: Foi o caixão com tampa de vidro que guardava sua linda donzela adormecida. Amedrontado, com o pânico correndo por suas veias, ele avançou até a amada. Ela jazia pálida como uma rosa naqueles lençóis vermelhos. Um dos anões explicou que havia sido uma maçã enfeitiçada, e que logo a feiticeira voltaria para arrancar-lhe o coração e se banhar em seu sangue. Mas não importava para o príncipe. O torpor tomou conta de seu corpo e ele empurrou para longe a tampa, que logo estilhaçou no chão. Os homenzinhos estavam consternados demais para fazer algum intervenção. O jovem abraçou a amada e beijou-lhe os lábios. Ah, como a queria de volta. Se pelo menos a tivesse achado antes! Se ao menos tivesse falado com ela no momento em que a vira. 


Desgostoso da vida, o jovem decidiu segui-la mais uma vez para onde, decidiu ele, ela não pudesse escapar de suas mãos.


Com uma terceira seta, o príncipe banhou o corpo da amada com o próprio sangue.

domingo, 3 de novembro de 2013

O Motorista

Sempre quis saber o que se passava na cabeça de um motorista de ônibus. 
Antes, quando era mais jovem, imaginava que seria uma motorista de ônibus. Em minha inocente cabeça, acreditava que minha vida seria uma grande aventura, conhecendo lugares novos, ajudando pessoas a irem a quaisquer lugares que quisessem ser levadas e dirigindo, pois em minha infância, dirigir era legal. Quem sabe eu também teria um ônibus personalizado? Só na quinta série que eu fui descobrir o motivo deles terem cores diferentes.
De qualquer forma, com o passar do tempo acabei por me esquecer desse sonho estranho e só voltei a me lembrar quando me dei por mim pensando no que o motorista de ônibus deveria está pensando. Tanto ele quanto a cobradora (que por um motivo, por mim desconhecido, usava uma meia arrastão por baixo da calça social que vestia), queria saber o que ambos pensavam. A finalidade? Bem, nem mesmo eu sei. O motivo? Ok, era meia noite do dia 31 de outubro e eu tinha pegado ônibus. Eu era a única entre tantos assentos vazios. Era fácil imaginar que aquele motorista poderia se esquecer da rota e ir direto ao ponto final. Mas não era bem isso que enchia minha cabeça.  
Assim que eu entrei no ônibus, os dois passageiros que lá estavam desceram - não antes de jogar gracejos à minha fantasia. Normal. Na festa acabei por perder alguns pertences. Era a primeira festa festa que eu fui. Havia luzes, muitas pessoas, muita bebida, muita música e muitas fantasias. Havia ido com uma amiga e acabei por perdê-la umas três vezes e seguindo outra chapeuzinho vermelho. Eram três delas lá. Uma das vezes que consegui reencontrá-la, ela estava xavecando um lobo, e tenho certeza que aquele também era mau. Foi mais ou menos naquela hora que perdi minha bolsa. Percebi quando, tentando se livrar de mim, Carol perguntou-me se não tinha trazido uma comigo. É incrível como uma pessoa consegue perceber esse tipo de coisa no desespero. De qualquer forma, quando achei a bolsa, apenas as minhas roupas normais haviam desaparecido. E fiquei tão chateada somando minha solidão no meio da dança bêbada dos veteranos que acabei por deixar a festa vestida de noiva cadáver. Não que fosse uma noiva de verdade. Era apenas um vestido de formatura rosado que eu havia acidentalmente rasgado e minha irmã mais velha customizou para eu ir. Era um tanto vergonhoso, a parte da frente era mais curta que a de trás e minha irmã me obrigara a usar uma meia alta que mostrava as presilhas em minha cocha, além de ter me maquiado profissionalmente. Pode parecer estranho, mas ela aprendeu tudo na internet. E agora eu pagava o pato. Fiquei esperando na parada e ignorando os convites para carona que me apareciam até finalmente pegar o ônibus. Quando entrei, a primeira coisa que reparei foi no olhar cansado do motorista. 
O motorista era um homem de meia idade já começando a ficar calvo. tinha a pele amendoada e orelhas tão grandes quanto uma orelha pode ser. A pele era suada e ele levava consigo uma garrafa de água, junto ao banco. O motorista era um homem cansado. Percebia-se isso por seu olhar. Gostaria de saber o que ele estava pensando. Gostaria de saber se estava cansado apenas por ter ficado o dia inteiro (ou parte dele, nunca interessei-me em pesquisar sobre o horário de trabalho de um motorista de ônibus, apesar de minhas antigas especulações da infância) trabalhando, ou se havia algum problema dentro da casa dele. Talvez tivesse brigado com a cobradora de aparência suspeita. Minha ideia mais confiável era que ele simplesmente estivesse aborrecido por ter que dirigir para apenas uma pessoa. O pobre motorista estava lá, cansado, e nem para ter pelo menos mais pessoas lá, para desfrutarem de seu esforço, para ele saber que valeu a pena. 
Ou talvez fosse o contrário. Talvez o homem estivesse apenas cansado por, durante o dia, o ônibus ter estado lotado demais, então.. Estaria ele bravo comigo por ter entrado lá? Mas antes não haviam dois garotos lá dentro? 
Entender a cabeça de um motorista de ônibus é uma tarefa muito confusa. Agora até eu já estava confusa. E nem mesmo sabia o porquê de ocupar minha mente com isso. Poderia está tentando descobrir o porquê da pessoa ter roubado apenas minhas roupas. Minha carteira de estudante, meu dinheiro, meu celular, minha escova, meu fone de ouvido, minha lixa de unha, meus papéis de rabiscar... Estava tudo dentro da minha bolsa- menos as minhas roupas. 
Aconcheguei-me junto à janela do ônibus e observei a paisagem. Admirei-a por alguns minutos até simplesmente perceber que era o caminho errado. Levantei a cabeça e endireitei a coluna com pressa e elevei a voz para chamar a atenção da cobradora. 
-Com licença,  moça, pode me dizer que ônibus é este? - perguntei. 
A cobradora lançou para mim um olhar cansado, quase piedoso. Depois voltou-se para o motorista. 
-Ela faz a mesma pergunta todos os anos. - suspirou ela sem se dá ao trabalho de responder. 
-Pobrezinha. Gostaria que pelo menos ela pudesse descansar em paz. - comentou o motorista. 
-Não é culpa sua. Sabe que só o que você pode fazer é dirigir. Vamos deixá-la lá e retornar ao serviço. Devemos explicar esse ano também? 
-Mesmo depois de ouvir todo esse tempo, acho que ela tem direito de saber como morreu. - Respondeu o motorista.

Ossos do infinito


Mariana.
Dezoito.
Acidente de carro.
Andava pela rua, bêbada, às quatro da manhã,
Sozinha.

Hugo.
Oito.
Afogado no rio de sua cidade.
Tentava tocar o chão das águas,
Tocar os belos cascalhos.

Ar...
Pulso.
Pulso.
Respirar!

Cecília.
Vinte e oito incompletos.
Overdose.
Pó branco, mais um pouco apenas,
Seu amante, seu frenesi, “sou forte”.

Vitor.
Quarenta e oito.
Câncer repentino.
Sugou sua vida, sugou seu ar,
Em um hospital esquecido.

“Em memória dele
Porque jaz aqui
Seus restos mortais
Suas cinzas encarnadas
Para viver
Da morte
Descansar em paz.”

A paz longínqua de suas vidas
O oito infinito
Do sobrenatural
Limite encarnado
Da cor dos olhos
Carmesim

Tão infinitos...
E por que tudo tem que ter um fim?
O fim de seus corpos putrefatos
Que exalam
O odor que tinham
Em suas medíocres vidas

Vidas de quê?
Buscavam cores
As cores do jardim
“Porque já disse, todos somos
Infinitos!”

Lembraram o cheiro e o gosto
O sabor do doce explodindo na boca
Ou do sangue escorrendo pelo nariz?

Sentiram a garganta queimar
Um fogo dentro
Um dragão espumando e lutando
Pelo simples, tão simples,
Respirar?

Desenharam no ar
Os seus sonhos
Os seus medos
E buscaram o infinito
Apenas o horizonte dele.

Encontraram-se
Abraçaram-se
Choraram
Lamentaram
Perceberam
O
Simples
Infinito
Por que jazem?
Por que lamentam?
Por que choram?
Lacrimejantes olhos
Hoje furos
Fundos buracos
Órbitas sem carne
Ossos

Poeira insensata

E o sentir da pele macia?
O apalpar dos corpos
Do amor?
Aos oito somado aos dezoito
Dos vinte e oito
Menos quarenta e oito
Porque sempre buscaram o infinito

Breves afinal
Porque buscaram o infinito
E quem sabe o encontraram?
Pois cá estou eu a narrar
A procura dos ossos pelo sucessivo oito

Acharam e negaram
Aquele bendito ciclo natural
Sem rimas
Sem brevidade ou métrica
Apenas o final
Da simples e mais que singela
Lei universal

“Veja seu epitáfio.
Confirme seu nome completo.
Seu nascimento, como uma estrela,
Um raiar de luz?
E o bendito dia da busca do infinito,
É essa sua cruz,
O seu sim da morte, amigo?”

“Jaz você, amigo,
Naquela tumba fria
Tão sozinha
Tão escura
Tão você
Não percebe, amigo?
É o seu interior.
Foi sua busca pelo infinito.
Foi apenas
O seu fim.
Um fim apenas?
O sim do seu ponto ferindo o final.”

Vislumbra.
Sinta
O seu feliz horizonte
O fim da sua carne
Início de seus ossos
Prazer, infinito.
Buscaste o oito,
Encontraste...
É você.

terça-feira, 10 de setembro de 2013

A Galinha

A primeira coisa que reparei ao entrar na casa, foi a grande e gorda galinha preta empoleirada no sofá. Penas brilhantes variando para o azul marinho, gordas cristas deformadas e tão vermelhas quanto uma crista pode ser. E no momento que a vi, logo tive certeza: não a queria ali. 
Bem, o normal seria se eu fosse uma menininha que acabou de sair da puberdade e começou a temer galinhas ou por medo ou porque as amiguinhas também temiam e seria estranho simpatizar com um inimigo, mas eu não me encaixava em nenhum desses critérios. Primeiro por ser um garoto, segundo por minha única amiga - de sexto feminino, é importante ressaltar, pois também possuo amigos de sexo masculino - é uma garota que simplesmente ama animais e não limita esse amor até as galinhas. Seria normal encontrar uma galinha numa sala, até porque Fernanda tinha uma cacatua e um ganso de estimação que andavam livremente por sua casa, e sempre que Denis e eu a visitávamos, os bichos não tinham vergonha de fazer-nos de almofada ou, no caso de Denis, um saco de pancadas. Mas com aquela galinha era diferente. 
Quando eu a vi, ali, bancando a dona da sala, emprumada no sofá, observando-me com superioridade, senti minhas entranhas darem voltas e meu almoço subir a garganta. Era normal que tia Rosa arranjasse bichinhos de estimações exóticos, mas era a primeira vez que trazia uma galinha. E era uma galinha maligna. Eu podia percebê-lo pelo olhar da coisa. Tinha a cabeça meio inclinada para o lado e me observava atentamente, como se pensasse. E lá estava ela, na casa da minha tia logo no dia que eu dormiria lá. 
Tentei explicar a minha tia que ela deveria fazer daquilo, um belo ensopado ou até mesmo uma lasanha, ou, se tivesse se afeiçoado demais ao bicho, que levasse a um supermercado que lá mesmo a matavam. Mas ela pareceu chocada e falou algo como "ninguém toca no meu bebê". Eu deveria ter suspeitado que seria assim. Sempre disse para minha mãe que aquela velha era louca. Era a irmã mais velha do meu pai e deveria ter uns 70 anos de idade. Ao que parecia, a caduquice havia batido na sua porta e ela deixara entrar aquela maldita galinha! 
Como uma pessoa normal. Decidi encarar os fatos como um homem e fui direto para o quarto de hóspedes e descansar da viagem. Como era de se esperar num feriado, minha mãe me mandara para a casa da tia Rosa na intenção de explorar minha boa vontade e trazer de lá uns trecos que ela tinha deixado por aqui alguns meses atrás. E ah, claro, fazer com que eu me aproximasse mais do lado paterno da família. Por minha mãe viver longe de meu pai, ela se achava na responsabilidade de me obrigar a conviver com ele e seu lado sanguíneo da família. 
De uma forma ou de outra, acabei por adormecer cedo. E para provar o quanto a galinha era do mal, acabei tendo um dos piores pesadelos que já tive, ou pelo menos que me lembro. Tinha sido mais um daqueles que começa estranho, você se levantando da cama para fazer Deus sabe lá o quê. Então, no sonho, deparei-me com a galinha emprumada na frente da porta do quarto onde eu dormia. Ela não estava de passagem, era um daqueles sonhos que você sabe não sabe como mas sabe. A galinha estava me esperando. E me encarava com a cabeça levemente inclinada para a esquerda. Seu bico estava entreaberto e vê-la no escuro causou-me um arrepio tão extravagante que acabei soltando um berro e chutando o capiroto para longe! 
A bicha também gritou e usou as asas para abafar a queda. Quebrou alguns jarros da tia. Caiu em pé no chão, encarou-me malignamente antes de cair no chão e abrir uma asa desajeitadamente. Lembro-me que nesse mesmo instante a tia Rosa apareceu na cozinha e pareceu chocada com a cena. E naquelas magias que só aparecem em sonhos, vi-me com uma faca de cortar carne na mão. E para piorar a coisa anida estava melada com o sangue daquela ave dissimulada. Quando dei-me por mim, percebi que estava do outro lado da cozinha, podia ver claramente a porta do meu quarto na outra extremidade. Sempre estivera eu ali? Quando andara até ali? Outro dos segredos obscuros dos sonhos!
E par piorar, a velha correu, numa velocidade inacreditável para a idade dela, em minha direção. "O que você está fazendo!? Pare! Pare! Farei um cozido de  v o c ê,  seu moleque maluco!", gritava a mulher, como uma daquelas bruxas de filmes da disney enquanto corria em minha direção. Não parecia ela mesma. Os cabelos brancos pareciam misticamente bagunçados e ousados demais para obedecerem a lei da gravidade. Seu rosto brilhava num tom esverdeado e até mesmo suas verrugas pareciam maiores. Seus dedos esqueléticos e compridos pareciam garras nas mãos ansiosas por mim. 
Berrei de pavor! Sem pensar, atirei a faca e fechei os olhos. Sabia que erraria, mas como uma magia, acertei em cheio a velha quando esta já estava a centímetros de mim. Quando os abri novamente, eu a vi estatelado no chão guinchando de dor, como faria um animal. Ela acocorara-se e usava as duas mãos para pressionar o olho esquerdo. A galinha cantou. A tia bruxa falou palavras sem sentido. Uma maldição, eu sabia da mesma forma que sabia que a galinha me esperara na porta do quarto. Aquilo deveria ser algum ritual. A velha se tornara um tipo de servidora do mal no tempo que eu estivera fora. Por isso a galinha preta! Tinha que ser! 
Corri até a gaveta de talheres e puxei uma faca para acabar com a bruxa e suas maldições. Mas como é de se esperar num sonho, o objeto que eu peguei não era o que estava em minhas mãos, então resolvi, numa fração de segundo, que usaria o garfo para espetar a mulher-bicho. 
E o fiz. De primeira, apenas consegui fazer alguns arranhões e ela urrou de dor, exatamente como um animal servo do mal que era ela e a galinha. Tentei novamente e de novo e pela quarta vez! Seu sangue espirrou sobre minha roupa, sobre a dela, sobre a cozinha e a cara da maldita galinha que cacarejava sem parar. 
A mulher soltou um último berro de dor antes de se silenciar para sempre. A galinha não. Não. Aquele bicho continua. Quando cheguei perto, seu poder obscuro era tal que comecei a ouvir vozes. Estas gritavam, exclamavam e interrogavam coisas sem sentido. Soltei o garfo e tampei meus ouvidos. "Pare! Chega! Pare!" Lembro-me de ter gritado, mas de minha boca também saíram apenas palavras sem sentido. 
Foi aí que eu acordei. 
Eu já não estava na casa da tia Rosa. Estava em minha própria cama. Molhado de suor. Espere, minha cama? Aquele quarto estava branco demais. Tinha no teto apenas um lâmpada fina e comprida. sentei-me na cama e percebi Denis sentado numa cadeira ao lado da cama em que me encontrava com a cabeça apoiada no colchão, perto da minha perna. Percebi também que as roupas que eu usava eram frescas. Bem frescas. Principalmente lá em baixo, se é que me entendem... Tentei acordar meu amigo adormecido pouco antes de perceber onde estava. Um hospital. 
Foi aí que percebi que toda aquela loucura tinha sido um sonho. Bem, até minha mãe entrar, ao lado do meu pai, no quarto. Era raro vê-los juntos. Principalmente  assim, sem se matar. Eu diria calmos, mas nunca vira meu pai com olhos tão vermelhos. Percebi, casualmente, que os dois trajavam negro. Como dois executivos. 
Meu pai ocupou-se em sentar ao meu lado enquanto mamãe acordava Denis e pedia para que ele esperasse do lado de fora. Bem, esse segundo pesadelo começou quando papai falou em sua voz mais calma possível: 
-Filho, quero que você me diga, o que, exatamente aconteceu na casa da sua tia Rosa no dia que ela morreu, antes de você ter um ataque e apagar.

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Rainha das águas


Passavam-se duas semanas desde que chegara ali e já não podia mais se deixar esperar. 
                    Rui Alexander era um daqueles exploradores que percorria todo o mundo em busca de uma nova aventura para viver e contar. Dessa vez, tinha sido atraído por uma lenda sobre crocodilos gigantes, que devorariam um robusto homem adulto em uma só mordida. Agora já não era esse o motivo que o mantinha preso ali. 
               Assim que chegara, o homem se deparou com um instigante boato sobre uma bela mulher à beira do lago. Nunca alguém era capaz de ver seu rosto, apenas seus negros cabelos. Tão escuros que - assim como contara Juan, o líder do acampamento-, eram quase azulados. Foram enviados homens para investigá-la, pois depois de descoberta, nenhum deles a deixaria. Segundo rumores, ela era tão linda, tão encantadora, que sua simples presença embriagara todos os enviados, deixando que apenas um voltasse com a notícia da morte dos outros dois companheiros. 
                 -Pois eu a vi, meu senhor. - explicara o sobrevivente à Juan - era linda como só a deusa Afrodite poderia ser. Tinha a pele tão corada quanto a dos nativos que rondam a floresta em busca de caça com flechas e lanças. Mas não era tão como eles. Não. Esta tinha cachos nos cabelos. E todo o tempo não prestou atenção à  nossa presença. Não tentou nos afastar nem se aproximou. Mulher linda, mas fria. Não importava o quanto a chamássemos, ela não virava o rosto. Tentamos fazer contato, pois Horácio já caía de amor por ela, e pensava já em desposa-la. Sabia eu que o senhor seu pai nunca concederia tal imprudência. Mas o rapaz, teimoso, não ouviu. Devo assumir que o que me salvou foi minha covardia, perdoe-me senhor, mas não fui capaz de chegar mais perto. A mulher era tão linda que me causava arrepios, e já havia aconselhado a minha esposa "Não chegue perto de mulheres perigosas, estas são capazes de até veneno soltar". Mas não foi aquela mulher quem os apunhalou, e sim, três dos maiores crocodilos que já vi em minha vida. Bem.. Não pude vê-los com clareza, mas os vi. Tinham bocas medonhas e suas caudas eram tamanhas que seriam facilmente confundidos com tubarões. Mas não há tubarões em lagos. Não me atrevo a voltar lá. O pobre do Horácio não pareceu ser o suficiente para alimentar metade do estômago de dois daqueles monstros. 
                Juan tentou perguntar sobre a moça. Mas o pobre homem não soube responder. Estivera assustado demais e logo foi mandado para a sua casa descansar nos braços da sua esposa. Antes de ir, este ainda aconselhou aos companheiros que o fizessem também, pois, mais cedo ou mais tarde, uma segunda tragédia aconteceria e, depois disso, não pararia mais, 
                       Os outros homens ficaram assustados o suficiente para manter em sua dieta apenas carnes vermelhas e frutas, bem longe do lago onde a mulher e os crocodilos foram encontrados. Mas Rui, pelo contrário, prometeu-lhes uma bela quantidade de peixes e ainda resolveria a mistério  da bela moça com que Horácio tanto desejara. Não ansiava por amor nem alguma luxúria. Só o que aquele homem carregava em seu valente coração era uma sede inesgotável por aventuras, conhecimentos e experiências. Conseguiu que um homem o guiasse até parte do caminho, mas nem sua boa lábia foi capaz de convencer o rapaz a ir com ele até o final da trilha que levava ao lago. 
                        Já passava do meio dia quando Rui chegou ao local. A superfície da água era lisa como vidro. Cristalina como as águas de uma banheira rasa. O lago refletia ardentemente o brilho do sol e iluminava tudo à sua volta. As árvores bem nutridas e carregadas de frutos maduros e suculentos, algumas flores silvestres belas e destratadas pela natureza, algumas rochas cravadas às margens, o colorido e místico fundo do lago e, por fim, a bela e esbelta mulher empoleirada na mais baixa e lisa pedra. 
                          Esta era a mais linda de todas as belezas que Rui vira em toda a sua via. E ele já vira muitas coisas na sua vida. Vira o nascer do sol, ao norte, quando as luzes refletiam nas molhadas paredes de gelo formando um grande e belo arco-íris; vira a danças das baleias de um navio pesqueiro a milhas de sua terra natal, vira milhares de pássaros voarem em direção ao sul no fim do outono, vira o mais belo dos jardins floridos com as mais diversas cores de rosas que já vira em toda a vida, mas nada se comparava àquela mulher. Ela tinha a pele num tom amendoado que apenas uma vida de bronzeamento poderia proporcioná-lhe. Tinha negros cabelos que esvoaçavam ao vento livremente sem formarem nós entre si, tinha a postura que nem mesmo uma rainha imitaria com tanta elegância e o que mais o surpreendera: Ela não tinha pernas. 
                      Logo em baixo de sua nua cintura, ela tinha uma escamosa cauda castanha que quase fundia com o tom de sua pele, brilhava  refletia a luz do sol como se tivesse sido polida e feita em metal. Oh! Como não ligara os pontos antes!? Rui encontrava-se diante da famosa rainha dos mares! Uma sereia! Mas tinha que contar isso ao mundo! E como tinha! Escreveria um livro com seu nome. Tinha que descobri-lo. Tinha que saber mais sobre sua vida! 
                       E sem mais esperar, o homem jogou seu fardo no chão e correu até a bela mulher. E como se não tivesse tido sorte o suficiente, ela virou para encará-lo. Tinha o rosto sereno e sonhador. Lembrava um felino. Feições suaves e inocentes. Puro e curioso. ele foi obrigado a parar para contemplá-lo. A moça sorriu com a cara de bobo do aventureiro e disse algo numa língua que ele nunca ouvira antes. E mesmo sem entender, ele desejou que ela continuasse a falar, só para que ele pudesse ter o prazer de ouvir sua voz novamente. 
                     E estava tão feliz, que podia morrer ali mesmo.
                     Ah, Rui, como não deveria tê-lo pensado. 
                    Como se ela tivesse ouvido seus pensamentos, a mulher ligeira com uma corça, pulou na água, nadou habilidosamente como uma cobra, veloz como um peixe-espada cortando a água com tanta facilidade com que cortou a pele do jovem abobado. Ainda vivo, ela o puxou para longe da superfície, para o fundo, que já não parecia tão receptivo quanto antes.
                   Eu queria possuir pernas, assim como você, ele pôde escutar, Queria eu, também, poder amar, assim como tantos outros que aqui apareceram, mas não importa o quanto eu queira, não sou uma de vocês. 
                      A voz era linda, assim como a coisa que o levava cada vez mais para o fundo. Cada vez mais para longe. Mas não era nisso que ele estava interessado. Havia coisas mais importantes que os sentimentos de um ser anormal. Tais coisas como: como ela era capaz de respirar em baixo d'água? Possuía ela brânquias também? Sempre chamava as pessoas para si assim? Era ela e sua espécie quem matava os marinheiros? Poderia ela entrar num barco e desamarrar um homem para levá-lo para o fundo do mar? 
               Haviam muitas respostas que o interessavam e lhe seriam úteis, apesar de ter consciência que morreria. Apesar de tudo, Ele só quis, naquele instante, saber a resposta de uma. A única que ele deixaria como último desejo não concedido, o nome de seu livro.
                E qual é o seu nome? - perguntou ele em meio aos engasgos e sob a pressão d'água em seus ouvidos. E mesmo com a tontura e atordoamento, ele lembrou da última palavras que ouviu em vida: 
                Iara.