domingo, 1 de setembro de 2013

Sublime negritude


Órbitas negras. Vejo aqueles olhinhos pequenos que me admiram em toda sua irracionalidade. Admiro-os da mesma forma. Tão pequenos... Rijos. Piscam para mim diversas vezes, e eu, absorta em meus pensamentos, não paro de vê-los. E com suas penas molhadas, naquela garoa de dezembro, voa em suas míseras asas tão minúsculas. Pequeno passarinho negro em meio ao deserto daquela chuva. Bem que poderia ser um corvo... Ou apenas um pássaro em busca de sua casa. Está tarde para um pássaro de hábitos tão diurnos como este estar por aí, voando em meio a essa chuva. Olho para cima e vejo aqueles enormes pingos a me impor medo... Temor. Desde quando fui tão medrosa? Enrolo-me em mim mesma, naquele chão de grãos tão minúsculos como o de areia da praia. Fina, pesarosa areia. O que faço aqui nesta praia tão deserta? Provavelmente para me lembrar dele... Viemos tantas vezes aqui, encostados neste coqueiro de tão suave existência! Peculiar coqueiro, imerso em meio a certos outros, em uma praia inóspita. Tinha por si só uma curvatura elegante, que lhe dava um ar de orgulho. Assim era ele. Orgulhoso. Quantas vezes olhou-me com desdém naquelas órbitas negras, tão negras como aquele pequeno pássaro que ainda há pouco admirava? Meus pés guiaram-me até ali, ao lado do coqueiro. Caminhava longe dali, procurando o abrigo do meu lar para proteger-me da chuva que viria, a garoa que estava por vir. Voltar para minha casa. E então, por meus próprios instintos, seguia até aquela praia... A praia de nossos romances que agora desmanchava em negro, com penas por todos os lados. Penas de destruição e veneno. Como se teve um fim? Não me recordo muito bem... É um passado envolto em choro inocente. Quando me lembro daquela época, vejo tudo embaçado e incolor. Ele me trouxe ali, e parecia que me pediria em casamento. Oito longos anos daquilo. Suportava tudo com carinho e paciência. Todos os maldizeres, a tormenta de palavras cuspidas na minha cara como quem não se importa comigo. Ouvia tudo em silêncio, e engolia os maldosos vocábulos. "Você é tão calada, engole tanta coisa aí consigo que tenho certeza que guarda uma podridão em si. Por que é tão apática a tudo e todos?". Lembro-me daquelas palavras que me cortavam copiosamente. Olhei o coqueiro, e esperava seu consolo. Quando me davam consolo? Estava sozinha ali, e as palavras cortantes queriam voltar a minha mente. Bloqueava-as em mim, no meu confuso pensar, mas pra quê? Estavam desenroladas... Fico mais próxima ao coqueiro, e espero o desenrolar dos fatos. Sim, viria em minha mente aquele trauma. Mas pela primeira vez todo completo. Esperei pelo pior, e engoli em seco.

Estava ali, com aquele meu vestido florido de azul, salpicado de cores, transmitindo uma alegria que eu tinha apesar de tudo. Era um sofrido relacionamento, mas gostava dele e suportava tudo com amor. Segurava sua mão, fato até este surpreendente. Fitava os meus pés envoltos na areia do pôr-do-sol, suave à minha pele. Ele me avisou que queria dizer alguma coisa ali, naquela praia. Esperei por suas palavras ansiosamente. Pensei que receberia a aliança ali. Encosto-me ao coqueiro, e esboço um sorriso de alguém vitorioso. "Eu disse que o teria... Todos diziam que eu estava me enganando com ele, mas olha aí a situação! Na praia em que começamos tudo". Ele solta as palavras lentamente, como quem as escolhe. Parecia atordoado. "Bem, Fernanda... Voltamos aqui, hein? Como tantas vezes. Mas desta vez é diferente. Acho que lhe devo satisfações. Posso ter sido um tanto grosso todo esse tempo, não? Acho que não esperava isso. Mas dei-lhe a chance de me conquistar. E agora..." Ouço tudo envolta em vitória, sentindo o sabor em meus lábios daquilo que tanto desejei no longo tempo em que estive com ele. Mário estava ruim. Ruim mesmo. Não lhe era confortável aquela situação. Apertei-lhe as mãos, e pensei ter expressado que estava prestando atenção, e que continuasse. 

- Enfim. Acho que me enganei com você. Pensava que fosse aquela mulher para toda a vida. Ingênua e frágil. Sim, você é. E até demais. Por que nunca me enfrenta? Por que sempre parece tão apática em meio aos meus xingamentos? Acredito que não me ama o suficiente. E nem eu amo você. De qualquer forma, foi uma diversão interessante, até mesmo nesta praia. Você estava confiante de que me teria, não? O cara mais desejado da faculdade. Mas estou seguindo o conselho de Ricardo para não lhe ferir tanto... Ele tem simpatia por você, Fernanda. Deve ser pena, acredito. Sua falta de atitude não me é mais suportável, não me traz mais curiosidade. Acho que já deu o que tinha de dar.
- Isso... Isso é um fim, Mário? - engulo em seco estas palavras, e eu pensava que sairiam sem falha. Erro meu.
- Mas que tola... É, Fernanda, é um fim. És tão idiota que não entende quando um cara tá terminando contigo? Já era, filha! Acabou, entende? Será possível que não entende nada disso? - as veias já lhe saltavam do rosto, e ele estava ficando com raiva. O borrão da minha visão crescia.
- Mas... Mário! Eu pensava que gostava de mim. Você disse que gostava. - me encolhi em meio a mais manifestações dele, e ajeitava os óculos com minhas mãos trêmulas, não obedecendo mais a comando algum de meu cérebro.
- (...) Sua estúpida! Nunca percebeu que eu que aguentava você em todo seu silêncio? Toda sua apatia ingênua e infeliz. Avisaram-me que era só timidez. Não, Fernanda, criei antipatia por seu ser tão sem sal. Pensei que seria mais fácil me livrar de você. Mas claro, isso só mostra como sempre erro em qualquer coisa que penso de você. - ele já levantava para ir embora, enfurecido com todo o rumo da situação.
- Seu... Argh, Mário! Você... Você não pode fazer isso comigo! - afastava-me para me apoiar no coqueiro, porque minhas pernas já não aguentavam mais suportar o peso de meu corpo. Ao ouvir estas palavras, foi pra cima de mim em um ímpeto de raiva.
- Claro que posso, Fernandinha! - falava-me com desdém. - Posso tanto que já estou fazendo. Já era pra você, já deu o que tinha que dar. Agora chora, pelo menos expressa uma vez na vida o que sente! - cuspia os versos em mim, e eu me encolhia, absorvendo aquelas palavras, ouvindo-as como quem nunca gostaria de ter a capacidade de escutar.

Observava seus olhos em mim coléricos, com suas íris enegrecidas dilatadas com o fervor da ira. Gostava de admirá-las porque transpareciam amor. Seus olhos dissipavam as trevas em mim, e acalmavam-me mesmo com suas palavras grossas e venenosas. Era só enxergá-los para sentir-me melhor. Mas desta vez era diferente... Seus olhos estavam terríveis. Não dissipavam mais as trevas em mim. Criavam-nas. E todas aquelas suas palavras... Não estavam ajudando. Pude ver a realidade, como se tivessem tirado a venda de meus olhos. Vi a cólera estampada em seu rosto, e esta foi transmitida em mim. Suas palavras eram repetidas como um disco arranhado em minha mente, todas aquelas palavras horríveis foram dispostas em meu intelecto. Eu o vi como um nada. Como um ser desprovido de amor e razão. Senti raiva. Primeiramente raiva de mim mesma por sempre ter sido tão tola com ele. Então parei de ouvi-lo. Estava prestando atenção à vozinha que vinha em minha mente conflituosa, bem lá no fundo... Estava em um tom bem baixo, portanto, atentei mais ao que ela falava. Ainda estava muito confuso.

Fechei meus olhos por um instante, e percebi que ele estava pegando suas coisas para ir embora definitivamente. Então aconteceu. Não lembro muito bem, porque tudo não passava de um borrão. Lembro-me de ouvir a voz e dar sentido a ela... Dizia que ele merecia a suave morte. Porque eu era estúpida e sempre tinha sido boa para ele, ouvindo-o, amando-o, não reclamando... Atentava a voz, e a obedeci. Abri os olhos e procurei por algo... Vi um coco a 1 metro, e corri para lá. Peguei-o e segurei com todas as minhas forças. Estamos em um boliche. Sim... Mário pagaria por tudo isso. Não morreria, claro, por que o mataria? Apenas o machucaria para que soubesse que reajo às coisas. Que sou vivente e tenho atitude. Talvez me queira de volta depois dessa. Talvez seja este o sal que estava faltando em mim... Ouvi estes pensamentos em mim e tive nojo. Nojo de mim mesma. Eu era estupidamente apaixonada por ele. Ainda lúcida, morria de amores e faria de tudo para tê-lo de volta.

O coco não estava mais em minha mão, e a lembrança se torna cortada. O que acontece agora? Esforço-me para lembrar... Remexendo uma memória antiga e cheia de conflitos. O causador da minha irônica loucura. Vejo a cena de seu rosto com uma fina linha escarlate brotando da cabeça... Havia batido a cabeça no coqueiro que estava a sua frente, levado a queda por causa do coco que joguei, logo pensei. E estava desmaiando... Peguei-o ainda acordado, e pude falar algumas palavras... Algo como, "você vai ver como eu mudei... Olhe, estou fazendo o que quero, estou tendo atitude! Você ainda me ama, não é, Mário? Eu amo você e não deixarei que se vá...". Tento lembrar, mas faltam partes... Seus lindos olhos negros observam aquela cena, fitam o nada e depois se fecham de ímpeto. Estou abrindo minha bolsa... Sim. Aquela pequena tesourinha de unha. Olho para Mário e... Há um lapso. Não há nada para ver, mas ouço minha risada triunfante, dramática. Ouço um barulho oco, duro, mas não o entendo... Será o som de sua cabeça batendo em algo? Mas então sinto que estou cortando algo com muita meticulosidade. Perfurando, retalhando, obstruindo. Sinto minhas mãos e estão molhadas por alguma coisa. Acho que neste momento já estou possuída pela insanidade, e ela me veio como uma brisa, mas não mais brisa, um furacão, pegou-me como por um acidente. Seguindo aquela voz da cabeça de início.

O meu peito dói, mas não é mais lá naquela lembrança... É aqui. A dor nasce em mim, remoendo aquelas lembranças pela primeira vez, e dou-me conta do que fiz. Monstro. Horrenda. Terrível. Pena que não existe a prisão perpétua... Deveria para alguém tão medíocre como eu. Volto a concentrar-me na lembrança, e recordo-me da ligação confusa que fiz pela manhã... Ouço o som de uma ambulância, e de um choro repentino. Vejo-me agora cambaleante pela rua, e agora me encontro cuspindo umas palavras de forma rápida e confusa para um policial que estava em minha frente observando-me e ouvindo-me atentamente. Era clara esta parte. Confessava o assassinato de Mário... E chorava em meio a tudo isso. Dizia não entender o que havia se passado.

Lembro-me dos dias na prisão, da minha mãe chorando por mim quando me visitava, não entendendo o por quê de sua boa moça estar ali. E volto ao local ao qual me encontro. O lugar de mim e Mário... Encostada no coqueiro de nossos romances. O coqueiro torto na areia, o único torto em meio a todos os outros perfeitos. No dia em que saí da prisão por meu erro de tantos anos atrás... Saindo da prisão mais cedo pelo excelente comportamento. E por quê? Por que tive de viver até esse dia? Por que tive de ser levada pela insanidade logo naquele dia? Por que paguei por meu erro apenas com uma prisão? Mário pagou com a vida... Com aquela vida de moço rico. Talvez eu o amasse mesmo como imaginava... E matei quem amava tanto... Como? Fatídico dia daquele alvoroço... Olho para minhas mãos miúdas, não acreditando como foram capazes de cometer tal ato. O choro estava preso, e eu já estava tão fria e triste por tantos erros, desacreditada de mim mesma, que tudo parecia definhar ao meu redor. O que eu era? O que poderia ser? Uma assassina. O sangue de Mário sempre estaria em minhas mãos. Sempre, não importa quanto tempo passasse. Eu o havia matado. Vi em minha memória cheia de lapsos.

E as lágrimas vêm como um lamento profundo. Como um alívio de tantos anos, como uma libertação em um abrir e fechar de olhos. Lágrimas simples e naturais. Então depois de tantos anos, enfim posso chorar amargamente em meio à lembrança triste e infeliz, salpicada em escarlate. Olho para o horizonte, e admiro o céu alaranjado, com o sol a espreguiçar-se em si mesmo, superado da chuva de ainda há pouco. O arco-íris acima das folhas do coqueiro selava o compromisso entre os cosmos naturais. Procuro o pequeno pássaro e lá está ele, de volta ao coqueiro. Olhava-me curiosa, e eu estampava toda a minha comoção. Volto a admirar seus olhinhos, desta vez com tudo borrado pelas lágrimas. E podia ver e admirar apenas a sublime negritude de seus pequeníssimos olhos. 

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