terça-feira, 4 de março de 2014

Palavras notadas


Com seu lirismo coberto de devaneios, punha a pena na tinta e escrevia... Escrevia por segundos inteiros de opressão morosa, porque sua própria Mente o oprimia. “Que fazes tu, ó, Mente? Decida-se. Era seu cabelo macio como a seda das Índias ou era apenas impressão sua? Colocaria sua maciez ou seria esta uma fuga para a cafonice?” E em resposta, a Mente, da forma mais suave e irônica possível, só dizia um “ora pois, só escreva, a obra é minha”. Quando pôs-se a escrever, logo seu nome completo, as Palavras o viram como uma porta em especial. “Uma forma de sermos notadas, olhem só. Nosso mais novo escravo”. Escolheram-no. E o Escritor, com seus poucos anos de idade, era só alegria. Escreveu seu primeiro pequeno texto, falando apenas da grandiosidade do sol. Mas ah!, que belo! Viu que aquele era seu mais novo ar para respirar. O oxigênio de que precisava não estava no céu que descrevia com tanto afinco no seu primeiro texto, mas no próprio CÉU. A simples e bela palavra de três letras, porque sentia-se que era completamente realizado apenas com a menção dela no papel. A felicidade era tamanha que continuou a escrever. Foi simplesmente amor a todas as vistas. Por vezes amigo ou amante, às vezes se dava por inimigo. “Mas não quero você, Amor. Eu troco por Paixão. É tão semelhante”. E as teimosas Palavras apenas diziam, “escreva Amor. É ele quem queremos. Paixão não é o suficiente”. O Escritor, raivoso, escrevia Paixão e mal se dava conta de seu erro. Não queria mimá-las, dizia como desculpa. Mas, por fim, era tão atormentado por elas, que no fim acaba por perceber que Amor casava-se perfeitamente no texto no qual tinha escrito. Estava preso às Palavras, mas as amava com todas as suas forças!

Por conta delas ganhou sua esposa, porque sabia descrevê-la como ninguém. Tão metido consigo mesmo, eram as Palavras que a amava por mais, porque era tão doce e meiga que precisava estar ao lado do Escritor. A Mulher incitava a poesia e ao lirismo, e consequentemente a uma obediência maior às Palavras. O Escritor, já tão possuído pelas duas fraquezas, escrevia e só dava gosto e prazer a suas senhoras. Era feliz, era sua única certeza. Vivia por elas, e assim lhes dava alegria.

Mais uma vez a pena na tinta, e as Palavras vinham, escreviam-se como se tivessem vida própria. Eram escolhidas pela perspicaz Mente. E aquele Escritor, escrevendo por enormes séculos, cansava-se, morava-se, mas era uma paixão que não entendia. Eram aquelas Palavras que o libertava, porque se não as escrevesse, a mente o oprimia. Era como um TOC. Um transtorno obsessivo compulsivo sem comparações. Sendo esta ideia fixa que assalta a Mente com persistência, as Palavras punam-lhe como escravo. “Escreva, somente escreva. Nós que damos vida a sua gloriosa Mente”. O que restava do pobre Escritor? Escrever e escrever, porque só assim se libertava da opressão. A paz vinha nas Palavras escritas, e o conforto vinha das Palavras, belas Palavras que, sabe-se de lá sua origem, mas vinham, simplesmente apareciam! Vinham tão suavemente, mas que de repente devastavam tudo. Queriam ser notadas, e para tanto, precisavam estar escritas. Não bastavam estar na Mente, mas queriam estar externas. Queriam viver nos papéis A4, e compostas pela tinta. Queriam ter sua essência de tinta, por mais que não conseguissem expressar sua verdadeira essência. “As Palavras precisam ser notadas”, comprovou o Escritor oprimido. “Sou seu escravo, e nada mais. Estejam em mim e façam parte da minha mente, pois quando levo-as para o mundo, liberto-me. Sua opressão me fascina, e já estou preso a vocês. É simplesmente, queridas Palavras, a melhor escravidão do mundo. Possuam-me, nada mais. Serei seu oleiro, e as levarei ao mundo para serem tomadas e não mais esquecidas. Na imensidão do planeta racional, não mais existirão, mas farão de sua existência, a eternidade escrita”. E o Escritor apaixonou-se por elas. Viveu com elas, amou-as como a menina dos seus olhos. Foi instigado por mais, e mais.


Nos seus oitenta anos e sete meses, as Palavras o consumiam tanto, e sua Mente abrigava tantas mais, que mal lembrava de todas. Estava por querer dar pane. As Palavras, chorosas e aflitas, queriam ainda viver. “Ele está para morrer, não podemos ir junto com ele!”. O Escritor as acalmava, e afirmava que estava forte para mais. Não poderia largar o seu vício, e sem as Palavras ao seu lado, morreria logo bem depressa. A Mulher, a esposa tão presente, uma das senhoras da vida do escritor, vislumbrando a situação, chorou. Chorou como nunca antes, e comoveu as outras senhoras. “Ficaremos. Nosso escravo precisa de nós, e estaremos com ele até o fim”. O Escritor nunca esteve tão bem. Suas senhoras, todas presentes, precisavam tanto dele quanto ele, delas. Percebeu o sentido, e assim poderia ir em paz com um belo sorriso nos lábios. Ainda em um grande devaneio, estava como que vivo, mas pronto para partir. “Daremos o maior presente de todos, grande Escritor. Por isso serás Palavra, como nós. Só assim serás eterno, e viverás esta alegria conosco. A cada vez que alguém ler teu texto, viverás. A cada vez que chorarem por teus textos, chorarás com este alguém. Felicitarás, amarás, rirás como nunca antes. Navegarás por águas nunca antes navegadas por homens, pois serás Palavra. Palavra sucinta, eficaz. Completarás outros tantos, e tornarás mais homens em Palavras. Esta será tua recompensa em te fazeres escravo de nós. Serás como nós, pois o coração da tua maior senhora nos cativou. Vivas, e para sempre”. O Escritor, ainda em seu grande devaneio, escutou as Palavras. Seu sorriso abriu-se, tão suavemente, tão singelo e puro, de tão pouco esforço... E então foi-se. Foi-se para além-mar. Foi-se como homem, e voltou como Palavra. A Mulher chorou, certa disso. A senhora esposa chorou, mas riu em seus textos. Sentiu o beijo doce do marido em cada leitura dos textos do Escritor... Exatamente como as Palavras haviam prometido. E amou-as, como nunca antes havia amado. Assim seu marido, seu belo Escritor, pulsava como sangue nas veias, respirando, vivendo, existindo. Apenas mais uma Palavra na imensidão do Universo das Palavras, todas ansiando para serem notadas

sábado, 11 de janeiro de 2014

O vagabundo.

Era só o que era sabido: ele era um vagabundo. 
Cabelos despenteados e queimados pelo sol, calças rasgadas, camisa imunda e uma barba a aparar. Não devia ser muito mais velho que Renato, contudo, sua aparência informava o contrário. A única coisa que parecia valer algo junto dele, era um reluzente saxofone. Como aquele, Renato nunca vira. Era preto e dourado, tão polido quanto o mais brilhoso dos troféus em sua estante. Se às vezes Renato punha algum trocado naquele chapéu esfarrapado ao lado do vagabundo, era por admiração àquele instrumento. Mais belo impossível. Certo dia, o vagabundo parou de tocar para cantar. Cantou, e cantou e ninguém parou para ouvir. No dia seguinte, Linda, prima de Renato, comentou sobre a letra da música que, julgou o parente, ela devia ter sido a única que parou para escutar. Se o vagabundo tocava a mais suave e prazerosa das melodias, cantava a mais infernal das músicas. Sua voz era rouca e crespa. O que se espera de um vagabundo. 
Nunca Renato pensaria em ter algo com aquele vagabundo. Bem, nunca até aquele dia. 
Aquele dia, em especial, Renato estava cansado e sonolento por ter chegado tarde da competição na noite passada, por isso fez algo parecido com um escândalo quando acordou e viu o vagabundo em pé, no seu quarto, observando com atenção cada troféu da estante de vidro. 
Perguntou como o cara tinha invadido sua casa, o que queria, exigiu que saísse. Falou tão rápido e grosso que não deu tempo ao vagabundo para que este formulasse alguma resposta. Respirou algumas vezes e então se acalmou. Olhou novamente para o vagabundo que exalava um odor um tanto... Desagradável. O homem retribuiu com uma expressão inocente de um cachorro faminto. Pediu ajuda. Disse que tinha perdido o seu saxofone por culpa dele e dos amigos. Renato tentou se lembrar de quando isso havia acontecido. O mendigo contou ter sido na noite anterior, quando voltavam de carro, cantando como moçoilas bêbadas.
Tanto falou, tanto fez que acabou convencendo Renato apelando pelo lado culpado do homem. Assim os dois foram, no carro de Renato, até o local onde supostamente ele e seus amigos teriam feito o mendigo perder o sax. Era uma estrada onde havia mato para os dois lados. Saindo do bairro para o centro. Era bem possível que tivessem passado por lá noite passada, a competição tinha sido num ginásio que ficava no centro. Havia uma marca de pneu no chão. Uma freada brusca. Bem possível. Marcos realmente dirigia como um bêbado mesmo quando estava sóbrio. Alta velocidade, parada repentina e quase arrancando as cabeças dos passageiros de seus respectivos ombros. Mas como ele tinha sido o único a não beber, a direção tinha ficado por sua conta. 
Procuraram pela estrada, pelas beiradas e até se arriscaram mais para perto do mato. Não havia nada reluzente por ali. Renato lembrou de perguntar inúmeras vezes se realmente tinha sido ali. O vagabundo confirmou tantas vezes quanto foram necessárias. Apenas acharam o brilho perdido no matagal quando o céu estava se pondo e o estômago de Renato rugia mais alto que sua consciência. 
-Lá está! - gritou o homem já cansado de tanto procurar. Não aguentava mais ter por companhia apenas um mendigo malcheiroso por todo esse tempo. 
Renato lançou-se para dentro das folhagens sem pensar duas vezes enquanto o mendigo não movia um músculo, e, ah, como poderia? Renato não estava errado sobre aquela luz brilhante no meio do verde, era realmente o saxofone negro e tão polido quanto seus troféus, contudo, agarrado a ele, estava um homem malvestido e sujo de terra e sangue, o corpo do mendigo vagabundo sendo comido por pequenos e grandes bichos jazia entre as folhagens da beira da estrada. 
Depois daquilo, Renato nunca mais viu o vagabundo, nunca mais correu ao ver coisas brilhosas, nunca mais parou naquela estrada.