Era outro daqueles dias de caça e novamente o príncipe se afastara muito dos demais companheiros de diversão. Havia se distanciado tanto dos outros, que sequer sabia onde estava. Agora se encontrava numa parte desconhecida do bosque. Ele seguiria as recomendações e esperaria exatamente onde estava quando se deu conta que havia se perdido, assim seria mais fácil alguém notar sua presença e achá-lo, e teria o feito se não tivesse ouvido aquela linda voz. Era simplesmente a mais bela que já havia escutado em toda a sua vida. Provavelmente vinha de algum lugar mais adiante.
Encantado, ele se deixou levar. Fez com que o cavalo avançasse lentamente até ela. Galopou suavemente até encontrá-la. Numa bela clareira, onde era possível ver um castelo de aparência abandonada entre um lindo jardim, ele a viu. Era formosa como uma delicada flor, possuía cabelos negros como a mais escura das noites, e sua pele era branca como a neve. Ele imediatamente se apaixonou pela jovem. Teria chegado até ela e a pedido em casamento ali mesmo se sua ação não tivesse sido interrompida antes mesmo de acontecer.
Segundos depois de avistar a moça, um homem grandalhão e mal vestido apareceu com um machado em munho. O príncipe se encontrava perplexo demais para poder agir em defesa da amada. Se demorasse um pouco mais poderia ser o fim da donzela, e, para sua sorte, ela foi mais rápida que ele. Mas que vergonha. A jovem em perigo tendo mais coragem que o bem treinado príncipe, equipado com armas para caça e um cavalo branco! Ele não reservou tempo para remorso. Correu atrás do do brutamontes que seguia sua donzela em direção à floresta fechada. "Não corra para aí minha doce donzela, é perigoso demais para alguém delicada como você correr por aí", pensava o príncipe consigo mesmo enquanto galopava bravamente em busca de sua amada.
O jovem não perdeu de vista o grandalhão, e logo o alcançou. Infelizmente, percebeu o príncipe, a jovem não estava entre eles. Desembainhou a espada e estufou o peito antes de ordenar ao homem que parasse de perseguir a indefesa senhorita. Em sua defesa, o homem respondeu que nada havia a jovem feito, contudo, ele devia matá-la por ordem da rainha, que já o havia pagado para tal serviço. Confuso, o jovem príncipe perguntou ainda o motivo pelo qual a rainha iria querer a morte de uma inocente. Para isso o homem não possuía uma resposta. Era apenas um caçador. A única coisa que sabia era que a rainha era muito bela, diziam os rumores que ela se banhava utilizando o sangue das mais lindas jovens que ela podia achar. A presa em questão, era sua enteada, filha do falecido rei daquele local.
Horrorizado com a crueldade e egocentrismo daquela mulher, o príncipe fez com o caçador um novo trato: pagou-lhe o dobro do que a perversa rainha havia a ele pagado e ordenou que em troca, deixasse a donzela em paz. Infelizmente, o único a fazer sua parte no acordo teria sido ele, pois assim que recebeu o dinheiro, o caçador correu atrás da jovem que já havia sumido na floresta.
Tempestuoso com a traição, o jovem príncipe galopou atrás do caçador maculado. Ah, se o achasse, arrancaria sua cabeça e a empalaria em frente ao seu castelo, junto a dos outros que ousaram trair a família real.
Não precisou procurar muito, logo encontrou os dois, o desonroso e a moça. O monstro a encurralara junto ao pé de uma montanha e levantava o machado sobre a cabeça. Mas que desgraça! Nunca chegaria a tempo! Àquela distancia nunca erraria uma flecha, mas e se o machado a ferisse quando o homem fosse abatido?
O aperto no coração do jovem apaixonado durou pouco, pois logo o caçador abaixou a lâmina e a jovem fugiu silenciosa e graciosa como uma gazela. O infamado sentou-se no chão e a observou correr. O príncipe não perdeu tempo, antes que o homem pensasse em traí-lo novamente, arrumou a seta na besta a disparou. A fina lança aterrissou no crânio daquela desprezível figura sentada ao pé da montanha, fazendo de lá jorrar uma cachoeira rubra.
Que os lobos e os vermes se alimentassem de sua carne.
Pensando nisso, o jovem seguiu adiante, ao encontro de sua amada. Não a encontrou com a facilidade que desejaria. Silenciosamente, agradeceu ao Rei por tê-lo forçado a ter aquelas aulas de caça. Assim o jovem conseguiu um cervo para sua alimentação assim que caiu a noite, infelizmente, era trabalho das mulheres cozinhar, e mesmo que tivesse acendido um fogo para manter seu corpo aquecido, de nada lhe serviria assar a cerne se esta não tivesse gosto. Se ao menos tivesse algum vinho para disfarçar a falta de sabor do alimento...
Uma noite se passou e o jovem continuava a procura de sua donzela. Teria ela dormido bem? Teria se alimentado? Teria algum animal selvagem feito dela seu alimento? Sua cabeça rodava e sua garganta o importunava pedindo por água. E ainda havia o seu cavalo que mantinha-se firme, porém apenas um amigo para saber o quanto o outro não se sentia bem.
Com certa dificuldade, o príncipe achou um rio e lá ambos saciaram a sede. O jovem respirava aliviado quando ouviu uma canção. Esta era diferente, quase um lamento. Desta vez, a trova era cantada por várias vozes masculinas, cortava-lhe o coração ouvi-las.
Novamente o jovem se encontrou perseguindo o canto. Embrenhou-se entre uma árvore e outra até achá-la. Esta mulher era tão bela quanto a primeira. Um pouco acabada pela idade, porém permanecia bela, extraordinariamente elegante. Talvez ele a desejasse se não já estivesse terrivelmente apaixonado pela donzela que lhe escapara das mãos duas vezes. Também, havia algo estranho na mulher à sua frente. Apesar de encantadora, ela empunhava uma faca numa mão e carregava uma cesta com maçãs na outra. Parecia extremamente contentada consigo mesma. Terrivelmente realizada. O príncipe podia perceber a diabrura nos olhos da mulher. Mas o que lhe chamou a atenção foi o brilho em seus cabelos. Uma fina linha dourada abraçava sua cabeça. Uma coroa.
Como primeiro pensamento, o jovem se apressou em verificar se a lâmina estava manchada de sangue. "Auto lá!", gritou o rapaz temendo pelo pior.
A mulher não pareceu perturbada. Olhou para ele e o ignorou, mirou um espelho, que tirara de dentro da cesta contendo maçãs, com sua atenção. Murmurou para ele as seguintes palavras "Espelho, espelho meu, existe, nesse mundo, uma mulher mais bela do que eu?". Antes que pudesse receber sua resposta, o príncipe agiu. Aquela era a rainha. A mulher que mandara tirar a vida de sua amada para satisfazer seus desejos depravados. O rapaz escolheu uma flecha e a empunhou manualmente no seio da mulher. Esta não se surpreendeu e ainda sorriu triunfante para o seu assassino antes de sucumbir.
Sem esperar mais um minuto sequer, o jovem correu até a origem da sufocante canção. Na aberta da floresta, havia uma casa de teto baixo, baixa como os sete homenzinhos em pé na sua fachada. Mas não foi a altura dos homens nem da casa que chamou a atenção do jovem apaixonado: Foi o caixão com tampa de vidro que guardava sua linda donzela adormecida. Amedrontado, com o pânico correndo por suas veias, ele avançou até a amada. Ela jazia pálida como uma rosa naqueles lençóis vermelhos. Um dos anões explicou que havia sido uma maçã enfeitiçada, e que logo a feiticeira voltaria para arrancar-lhe o coração e se banhar em seu sangue. Mas não importava para o príncipe. O torpor tomou conta de seu corpo e ele empurrou para longe a tampa, que logo estilhaçou no chão. Os homenzinhos estavam consternados demais para fazer algum intervenção. O jovem abraçou a amada e beijou-lhe os lábios. Ah, como a queria de volta. Se pelo menos a tivesse achado antes! Se ao menos tivesse falado com ela no momento em que a vira.
Desgostoso da vida, o jovem decidiu segui-la mais uma vez para onde, decidiu ele, ela não pudesse escapar de suas mãos.
Com uma terceira seta, o príncipe banhou o corpo da amada com o próprio sangue.

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