domingo, 29 de dezembro de 2013

O Lado do Príncipe.




Era outro daqueles dias de caça e novamente o príncipe se afastara muito dos demais companheiros de diversão. Havia se distanciado tanto dos outros, que sequer sabia onde estava. Agora se encontrava numa parte desconhecida do bosque. Ele seguiria as recomendações e esperaria exatamente onde estava quando se deu conta que havia se perdido, assim seria mais fácil alguém notar sua presença e achá-lo, e teria o feito se não tivesse ouvido aquela linda voz. Era simplesmente a mais bela que já havia escutado em toda a sua vida. Provavelmente vinha de algum lugar mais adiante. 


Encantado, ele se deixou levar. Fez com que o cavalo avançasse lentamente até ela. Galopou suavemente até encontrá-la. Numa bela clareira, onde era possível ver um castelo de aparência abandonada entre um lindo jardim, ele a viu. Era formosa como uma delicada flor, possuía cabelos negros como a mais escura das noites, e sua pele era branca como a neve. Ele imediatamente se apaixonou pela jovem. Teria chegado até ela e a pedido em casamento ali mesmo se sua ação não tivesse sido interrompida antes mesmo de acontecer. 


Segundos depois de avistar a moça, um homem grandalhão e mal vestido apareceu com um machado em munho. O príncipe se encontrava perplexo demais para poder agir em defesa da amada. Se demorasse um pouco mais poderia ser o fim da donzela, e, para sua sorte, ela foi mais rápida que ele. Mas que vergonha. A jovem em perigo tendo mais coragem que o bem treinado príncipe, equipado com armas para caça e um cavalo branco! Ele não reservou tempo para remorso. Correu atrás do do brutamontes que seguia sua donzela em direção à floresta fechada. "Não corra para aí minha doce donzela, é perigoso demais para alguém delicada como você correr por aí", pensava o príncipe consigo mesmo enquanto galopava bravamente em busca de sua amada.


O jovem não perdeu de vista o grandalhão, e logo o alcançou. Infelizmente, percebeu o príncipe, a jovem não estava entre eles. Desembainhou a espada e estufou o peito antes de ordenar ao homem que parasse de perseguir a indefesa senhorita. Em sua defesa, o homem respondeu que nada havia a jovem feito, contudo, ele devia matá-la por ordem da rainha, que já o havia pagado para tal serviço. Confuso, o jovem príncipe perguntou ainda o motivo pelo qual a rainha iria querer a morte de uma inocente. Para isso o homem não possuía uma resposta. Era apenas um caçador. A única coisa que sabia era que a rainha era muito bela, diziam os rumores que ela se banhava utilizando o sangue das mais lindas jovens que ela podia achar. A presa em questão, era sua enteada, filha do falecido rei daquele local. 


Horrorizado com a crueldade e egocentrismo daquela mulher, o príncipe fez com o caçador um novo trato: pagou-lhe o dobro do que a perversa rainha havia a ele pagado e ordenou que em troca, deixasse a donzela em paz. Infelizmente, o único a fazer sua parte no acordo teria sido ele, pois assim que recebeu o dinheiro, o caçador correu atrás da jovem que já havia sumido na floresta.


Tempestuoso com a traição, o jovem príncipe galopou atrás do caçador maculado. Ah, se o achasse, arrancaria sua cabeça e a empalaria em frente ao seu castelo, junto a dos outros que ousaram trair a família real. 


Não precisou procurar muito, logo encontrou os dois, o desonroso e a moça. O monstro a encurralara junto ao pé de uma montanha e levantava o machado sobre a cabeça. Mas que desgraça! Nunca chegaria a tempo! Àquela distancia nunca erraria uma flecha, mas e se o machado a ferisse quando o homem fosse abatido? 


O aperto no coração do jovem apaixonado durou pouco, pois logo o caçador abaixou a lâmina e a jovem fugiu silenciosa e graciosa como uma gazela. O infamado sentou-se no chão e a observou correr. O príncipe não perdeu tempo, antes que o homem pensasse em traí-lo novamente, arrumou a seta na besta a disparou. A fina lança aterrissou no crânio daquela desprezível figura sentada ao pé da montanha, fazendo de lá jorrar uma cachoeira rubra. 


Que os lobos e os vermes se alimentassem de sua carne. 


Pensando nisso, o jovem seguiu adiante, ao encontro de sua amada. Não a encontrou com a facilidade que desejaria. Silenciosamente, agradeceu ao Rei por tê-lo forçado a ter aquelas aulas de caça. Assim o jovem conseguiu um cervo para sua alimentação assim que caiu a noite, infelizmente, era trabalho das mulheres cozinhar, e mesmo que tivesse acendido um fogo para manter seu corpo aquecido, de nada lhe serviria assar a cerne se esta não tivesse gosto. Se ao menos tivesse algum vinho para disfarçar a falta de sabor do alimento... 


Uma noite se passou e o jovem continuava a procura de sua donzela. Teria ela dormido bem? Teria se alimentado? Teria algum animal selvagem feito dela seu alimento? Sua cabeça rodava e sua garganta o importunava pedindo por água. E ainda havia o seu cavalo que mantinha-se firme, porém apenas um amigo para saber o quanto o outro não se sentia bem. 


Com certa dificuldade, o príncipe achou um rio e lá ambos saciaram a sede. O jovem respirava aliviado quando ouviu uma canção. Esta era diferente, quase um lamento. Desta vez, a trova era cantada por várias vozes masculinas, cortava-lhe o coração ouvi-las. 


Novamente o jovem se encontrou perseguindo o canto. Embrenhou-se entre uma árvore e outra até achá-la. Esta mulher era tão bela quanto a primeira. Um pouco acabada pela idade, porém permanecia bela, extraordinariamente elegante. Talvez ele a desejasse se não já estivesse terrivelmente apaixonado pela donzela que lhe escapara das mãos duas vezes. Também, havia algo estranho na mulher à sua frente. Apesar de encantadora, ela empunhava uma faca numa mão e carregava uma cesta com maçãs na outra. Parecia extremamente contentada consigo mesma. Terrivelmente realizada. O príncipe podia perceber a diabrura nos olhos da mulher. Mas o que lhe chamou a atenção foi o brilho em seus cabelos. Uma fina linha dourada abraçava sua cabeça. Uma coroa. 


Como primeiro pensamento, o jovem se apressou em verificar se a lâmina estava manchada de sangue. "Auto lá!", gritou o rapaz temendo pelo pior. 


A mulher não pareceu perturbada. Olhou para ele e o ignorou, mirou um espelho, que tirara de dentro da cesta contendo maçãs, com sua atenção. Murmurou para ele as seguintes palavras "Espelho, espelho meu, existe, nesse mundo, uma mulher mais bela do que eu?". Antes que pudesse receber sua resposta, o príncipe agiu. Aquela era a rainha. A mulher que mandara tirar a vida de sua amada para satisfazer seus desejos depravados. O rapaz escolheu uma flecha e a empunhou manualmente no seio da mulher. Esta não se surpreendeu e ainda sorriu triunfante para o seu assassino antes de sucumbir. 


Sem esperar mais um minuto sequer, o jovem correu até a origem da sufocante canção. Na aberta da floresta, havia uma casa de teto baixo, baixa como os sete homenzinhos em pé na sua fachada. Mas não foi a altura dos homens nem da casa que chamou a atenção do jovem apaixonado: Foi o caixão com tampa de vidro que guardava sua linda donzela adormecida. Amedrontado, com o pânico correndo por suas veias, ele avançou até a amada. Ela jazia pálida como uma rosa naqueles lençóis vermelhos. Um dos anões explicou que havia sido uma maçã enfeitiçada, e que logo a feiticeira voltaria para arrancar-lhe o coração e se banhar em seu sangue. Mas não importava para o príncipe. O torpor tomou conta de seu corpo e ele empurrou para longe a tampa, que logo estilhaçou no chão. Os homenzinhos estavam consternados demais para fazer algum intervenção. O jovem abraçou a amada e beijou-lhe os lábios. Ah, como a queria de volta. Se pelo menos a tivesse achado antes! Se ao menos tivesse falado com ela no momento em que a vira. 


Desgostoso da vida, o jovem decidiu segui-la mais uma vez para onde, decidiu ele, ela não pudesse escapar de suas mãos.


Com uma terceira seta, o príncipe banhou o corpo da amada com o próprio sangue.

domingo, 3 de novembro de 2013

O Motorista

Sempre quis saber o que se passava na cabeça de um motorista de ônibus. 
Antes, quando era mais jovem, imaginava que seria uma motorista de ônibus. Em minha inocente cabeça, acreditava que minha vida seria uma grande aventura, conhecendo lugares novos, ajudando pessoas a irem a quaisquer lugares que quisessem ser levadas e dirigindo, pois em minha infância, dirigir era legal. Quem sabe eu também teria um ônibus personalizado? Só na quinta série que eu fui descobrir o motivo deles terem cores diferentes.
De qualquer forma, com o passar do tempo acabei por me esquecer desse sonho estranho e só voltei a me lembrar quando me dei por mim pensando no que o motorista de ônibus deveria está pensando. Tanto ele quanto a cobradora (que por um motivo, por mim desconhecido, usava uma meia arrastão por baixo da calça social que vestia), queria saber o que ambos pensavam. A finalidade? Bem, nem mesmo eu sei. O motivo? Ok, era meia noite do dia 31 de outubro e eu tinha pegado ônibus. Eu era a única entre tantos assentos vazios. Era fácil imaginar que aquele motorista poderia se esquecer da rota e ir direto ao ponto final. Mas não era bem isso que enchia minha cabeça.  
Assim que eu entrei no ônibus, os dois passageiros que lá estavam desceram - não antes de jogar gracejos à minha fantasia. Normal. Na festa acabei por perder alguns pertences. Era a primeira festa festa que eu fui. Havia luzes, muitas pessoas, muita bebida, muita música e muitas fantasias. Havia ido com uma amiga e acabei por perdê-la umas três vezes e seguindo outra chapeuzinho vermelho. Eram três delas lá. Uma das vezes que consegui reencontrá-la, ela estava xavecando um lobo, e tenho certeza que aquele também era mau. Foi mais ou menos naquela hora que perdi minha bolsa. Percebi quando, tentando se livrar de mim, Carol perguntou-me se não tinha trazido uma comigo. É incrível como uma pessoa consegue perceber esse tipo de coisa no desespero. De qualquer forma, quando achei a bolsa, apenas as minhas roupas normais haviam desaparecido. E fiquei tão chateada somando minha solidão no meio da dança bêbada dos veteranos que acabei por deixar a festa vestida de noiva cadáver. Não que fosse uma noiva de verdade. Era apenas um vestido de formatura rosado que eu havia acidentalmente rasgado e minha irmã mais velha customizou para eu ir. Era um tanto vergonhoso, a parte da frente era mais curta que a de trás e minha irmã me obrigara a usar uma meia alta que mostrava as presilhas em minha cocha, além de ter me maquiado profissionalmente. Pode parecer estranho, mas ela aprendeu tudo na internet. E agora eu pagava o pato. Fiquei esperando na parada e ignorando os convites para carona que me apareciam até finalmente pegar o ônibus. Quando entrei, a primeira coisa que reparei foi no olhar cansado do motorista. 
O motorista era um homem de meia idade já começando a ficar calvo. tinha a pele amendoada e orelhas tão grandes quanto uma orelha pode ser. A pele era suada e ele levava consigo uma garrafa de água, junto ao banco. O motorista era um homem cansado. Percebia-se isso por seu olhar. Gostaria de saber o que ele estava pensando. Gostaria de saber se estava cansado apenas por ter ficado o dia inteiro (ou parte dele, nunca interessei-me em pesquisar sobre o horário de trabalho de um motorista de ônibus, apesar de minhas antigas especulações da infância) trabalhando, ou se havia algum problema dentro da casa dele. Talvez tivesse brigado com a cobradora de aparência suspeita. Minha ideia mais confiável era que ele simplesmente estivesse aborrecido por ter que dirigir para apenas uma pessoa. O pobre motorista estava lá, cansado, e nem para ter pelo menos mais pessoas lá, para desfrutarem de seu esforço, para ele saber que valeu a pena. 
Ou talvez fosse o contrário. Talvez o homem estivesse apenas cansado por, durante o dia, o ônibus ter estado lotado demais, então.. Estaria ele bravo comigo por ter entrado lá? Mas antes não haviam dois garotos lá dentro? 
Entender a cabeça de um motorista de ônibus é uma tarefa muito confusa. Agora até eu já estava confusa. E nem mesmo sabia o porquê de ocupar minha mente com isso. Poderia está tentando descobrir o porquê da pessoa ter roubado apenas minhas roupas. Minha carteira de estudante, meu dinheiro, meu celular, minha escova, meu fone de ouvido, minha lixa de unha, meus papéis de rabiscar... Estava tudo dentro da minha bolsa- menos as minhas roupas. 
Aconcheguei-me junto à janela do ônibus e observei a paisagem. Admirei-a por alguns minutos até simplesmente perceber que era o caminho errado. Levantei a cabeça e endireitei a coluna com pressa e elevei a voz para chamar a atenção da cobradora. 
-Com licença,  moça, pode me dizer que ônibus é este? - perguntei. 
A cobradora lançou para mim um olhar cansado, quase piedoso. Depois voltou-se para o motorista. 
-Ela faz a mesma pergunta todos os anos. - suspirou ela sem se dá ao trabalho de responder. 
-Pobrezinha. Gostaria que pelo menos ela pudesse descansar em paz. - comentou o motorista. 
-Não é culpa sua. Sabe que só o que você pode fazer é dirigir. Vamos deixá-la lá e retornar ao serviço. Devemos explicar esse ano também? 
-Mesmo depois de ouvir todo esse tempo, acho que ela tem direito de saber como morreu. - Respondeu o motorista.

Ossos do infinito


Mariana.
Dezoito.
Acidente de carro.
Andava pela rua, bêbada, às quatro da manhã,
Sozinha.

Hugo.
Oito.
Afogado no rio de sua cidade.
Tentava tocar o chão das águas,
Tocar os belos cascalhos.

Ar...
Pulso.
Pulso.
Respirar!

Cecília.
Vinte e oito incompletos.
Overdose.
Pó branco, mais um pouco apenas,
Seu amante, seu frenesi, “sou forte”.

Vitor.
Quarenta e oito.
Câncer repentino.
Sugou sua vida, sugou seu ar,
Em um hospital esquecido.

“Em memória dele
Porque jaz aqui
Seus restos mortais
Suas cinzas encarnadas
Para viver
Da morte
Descansar em paz.”

A paz longínqua de suas vidas
O oito infinito
Do sobrenatural
Limite encarnado
Da cor dos olhos
Carmesim

Tão infinitos...
E por que tudo tem que ter um fim?
O fim de seus corpos putrefatos
Que exalam
O odor que tinham
Em suas medíocres vidas

Vidas de quê?
Buscavam cores
As cores do jardim
“Porque já disse, todos somos
Infinitos!”

Lembraram o cheiro e o gosto
O sabor do doce explodindo na boca
Ou do sangue escorrendo pelo nariz?

Sentiram a garganta queimar
Um fogo dentro
Um dragão espumando e lutando
Pelo simples, tão simples,
Respirar?

Desenharam no ar
Os seus sonhos
Os seus medos
E buscaram o infinito
Apenas o horizonte dele.

Encontraram-se
Abraçaram-se
Choraram
Lamentaram
Perceberam
O
Simples
Infinito
Por que jazem?
Por que lamentam?
Por que choram?
Lacrimejantes olhos
Hoje furos
Fundos buracos
Órbitas sem carne
Ossos

Poeira insensata

E o sentir da pele macia?
O apalpar dos corpos
Do amor?
Aos oito somado aos dezoito
Dos vinte e oito
Menos quarenta e oito
Porque sempre buscaram o infinito

Breves afinal
Porque buscaram o infinito
E quem sabe o encontraram?
Pois cá estou eu a narrar
A procura dos ossos pelo sucessivo oito

Acharam e negaram
Aquele bendito ciclo natural
Sem rimas
Sem brevidade ou métrica
Apenas o final
Da simples e mais que singela
Lei universal

“Veja seu epitáfio.
Confirme seu nome completo.
Seu nascimento, como uma estrela,
Um raiar de luz?
E o bendito dia da busca do infinito,
É essa sua cruz,
O seu sim da morte, amigo?”

“Jaz você, amigo,
Naquela tumba fria
Tão sozinha
Tão escura
Tão você
Não percebe, amigo?
É o seu interior.
Foi sua busca pelo infinito.
Foi apenas
O seu fim.
Um fim apenas?
O sim do seu ponto ferindo o final.”

Vislumbra.
Sinta
O seu feliz horizonte
O fim da sua carne
Início de seus ossos
Prazer, infinito.
Buscaste o oito,
Encontraste...
É você.

terça-feira, 10 de setembro de 2013

A Galinha

A primeira coisa que reparei ao entrar na casa, foi a grande e gorda galinha preta empoleirada no sofá. Penas brilhantes variando para o azul marinho, gordas cristas deformadas e tão vermelhas quanto uma crista pode ser. E no momento que a vi, logo tive certeza: não a queria ali. 
Bem, o normal seria se eu fosse uma menininha que acabou de sair da puberdade e começou a temer galinhas ou por medo ou porque as amiguinhas também temiam e seria estranho simpatizar com um inimigo, mas eu não me encaixava em nenhum desses critérios. Primeiro por ser um garoto, segundo por minha única amiga - de sexto feminino, é importante ressaltar, pois também possuo amigos de sexo masculino - é uma garota que simplesmente ama animais e não limita esse amor até as galinhas. Seria normal encontrar uma galinha numa sala, até porque Fernanda tinha uma cacatua e um ganso de estimação que andavam livremente por sua casa, e sempre que Denis e eu a visitávamos, os bichos não tinham vergonha de fazer-nos de almofada ou, no caso de Denis, um saco de pancadas. Mas com aquela galinha era diferente. 
Quando eu a vi, ali, bancando a dona da sala, emprumada no sofá, observando-me com superioridade, senti minhas entranhas darem voltas e meu almoço subir a garganta. Era normal que tia Rosa arranjasse bichinhos de estimações exóticos, mas era a primeira vez que trazia uma galinha. E era uma galinha maligna. Eu podia percebê-lo pelo olhar da coisa. Tinha a cabeça meio inclinada para o lado e me observava atentamente, como se pensasse. E lá estava ela, na casa da minha tia logo no dia que eu dormiria lá. 
Tentei explicar a minha tia que ela deveria fazer daquilo, um belo ensopado ou até mesmo uma lasanha, ou, se tivesse se afeiçoado demais ao bicho, que levasse a um supermercado que lá mesmo a matavam. Mas ela pareceu chocada e falou algo como "ninguém toca no meu bebê". Eu deveria ter suspeitado que seria assim. Sempre disse para minha mãe que aquela velha era louca. Era a irmã mais velha do meu pai e deveria ter uns 70 anos de idade. Ao que parecia, a caduquice havia batido na sua porta e ela deixara entrar aquela maldita galinha! 
Como uma pessoa normal. Decidi encarar os fatos como um homem e fui direto para o quarto de hóspedes e descansar da viagem. Como era de se esperar num feriado, minha mãe me mandara para a casa da tia Rosa na intenção de explorar minha boa vontade e trazer de lá uns trecos que ela tinha deixado por aqui alguns meses atrás. E ah, claro, fazer com que eu me aproximasse mais do lado paterno da família. Por minha mãe viver longe de meu pai, ela se achava na responsabilidade de me obrigar a conviver com ele e seu lado sanguíneo da família. 
De uma forma ou de outra, acabei por adormecer cedo. E para provar o quanto a galinha era do mal, acabei tendo um dos piores pesadelos que já tive, ou pelo menos que me lembro. Tinha sido mais um daqueles que começa estranho, você se levantando da cama para fazer Deus sabe lá o quê. Então, no sonho, deparei-me com a galinha emprumada na frente da porta do quarto onde eu dormia. Ela não estava de passagem, era um daqueles sonhos que você sabe não sabe como mas sabe. A galinha estava me esperando. E me encarava com a cabeça levemente inclinada para a esquerda. Seu bico estava entreaberto e vê-la no escuro causou-me um arrepio tão extravagante que acabei soltando um berro e chutando o capiroto para longe! 
A bicha também gritou e usou as asas para abafar a queda. Quebrou alguns jarros da tia. Caiu em pé no chão, encarou-me malignamente antes de cair no chão e abrir uma asa desajeitadamente. Lembro-me que nesse mesmo instante a tia Rosa apareceu na cozinha e pareceu chocada com a cena. E naquelas magias que só aparecem em sonhos, vi-me com uma faca de cortar carne na mão. E para piorar a coisa anida estava melada com o sangue daquela ave dissimulada. Quando dei-me por mim, percebi que estava do outro lado da cozinha, podia ver claramente a porta do meu quarto na outra extremidade. Sempre estivera eu ali? Quando andara até ali? Outro dos segredos obscuros dos sonhos!
E par piorar, a velha correu, numa velocidade inacreditável para a idade dela, em minha direção. "O que você está fazendo!? Pare! Pare! Farei um cozido de  v o c ê,  seu moleque maluco!", gritava a mulher, como uma daquelas bruxas de filmes da disney enquanto corria em minha direção. Não parecia ela mesma. Os cabelos brancos pareciam misticamente bagunçados e ousados demais para obedecerem a lei da gravidade. Seu rosto brilhava num tom esverdeado e até mesmo suas verrugas pareciam maiores. Seus dedos esqueléticos e compridos pareciam garras nas mãos ansiosas por mim. 
Berrei de pavor! Sem pensar, atirei a faca e fechei os olhos. Sabia que erraria, mas como uma magia, acertei em cheio a velha quando esta já estava a centímetros de mim. Quando os abri novamente, eu a vi estatelado no chão guinchando de dor, como faria um animal. Ela acocorara-se e usava as duas mãos para pressionar o olho esquerdo. A galinha cantou. A tia bruxa falou palavras sem sentido. Uma maldição, eu sabia da mesma forma que sabia que a galinha me esperara na porta do quarto. Aquilo deveria ser algum ritual. A velha se tornara um tipo de servidora do mal no tempo que eu estivera fora. Por isso a galinha preta! Tinha que ser! 
Corri até a gaveta de talheres e puxei uma faca para acabar com a bruxa e suas maldições. Mas como é de se esperar num sonho, o objeto que eu peguei não era o que estava em minhas mãos, então resolvi, numa fração de segundo, que usaria o garfo para espetar a mulher-bicho. 
E o fiz. De primeira, apenas consegui fazer alguns arranhões e ela urrou de dor, exatamente como um animal servo do mal que era ela e a galinha. Tentei novamente e de novo e pela quarta vez! Seu sangue espirrou sobre minha roupa, sobre a dela, sobre a cozinha e a cara da maldita galinha que cacarejava sem parar. 
A mulher soltou um último berro de dor antes de se silenciar para sempre. A galinha não. Não. Aquele bicho continua. Quando cheguei perto, seu poder obscuro era tal que comecei a ouvir vozes. Estas gritavam, exclamavam e interrogavam coisas sem sentido. Soltei o garfo e tampei meus ouvidos. "Pare! Chega! Pare!" Lembro-me de ter gritado, mas de minha boca também saíram apenas palavras sem sentido. 
Foi aí que eu acordei. 
Eu já não estava na casa da tia Rosa. Estava em minha própria cama. Molhado de suor. Espere, minha cama? Aquele quarto estava branco demais. Tinha no teto apenas um lâmpada fina e comprida. sentei-me na cama e percebi Denis sentado numa cadeira ao lado da cama em que me encontrava com a cabeça apoiada no colchão, perto da minha perna. Percebi também que as roupas que eu usava eram frescas. Bem frescas. Principalmente lá em baixo, se é que me entendem... Tentei acordar meu amigo adormecido pouco antes de perceber onde estava. Um hospital. 
Foi aí que percebi que toda aquela loucura tinha sido um sonho. Bem, até minha mãe entrar, ao lado do meu pai, no quarto. Era raro vê-los juntos. Principalmente  assim, sem se matar. Eu diria calmos, mas nunca vira meu pai com olhos tão vermelhos. Percebi, casualmente, que os dois trajavam negro. Como dois executivos. 
Meu pai ocupou-se em sentar ao meu lado enquanto mamãe acordava Denis e pedia para que ele esperasse do lado de fora. Bem, esse segundo pesadelo começou quando papai falou em sua voz mais calma possível: 
-Filho, quero que você me diga, o que, exatamente aconteceu na casa da sua tia Rosa no dia que ela morreu, antes de você ter um ataque e apagar.

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Rainha das águas


Passavam-se duas semanas desde que chegara ali e já não podia mais se deixar esperar. 
                    Rui Alexander era um daqueles exploradores que percorria todo o mundo em busca de uma nova aventura para viver e contar. Dessa vez, tinha sido atraído por uma lenda sobre crocodilos gigantes, que devorariam um robusto homem adulto em uma só mordida. Agora já não era esse o motivo que o mantinha preso ali. 
               Assim que chegara, o homem se deparou com um instigante boato sobre uma bela mulher à beira do lago. Nunca alguém era capaz de ver seu rosto, apenas seus negros cabelos. Tão escuros que - assim como contara Juan, o líder do acampamento-, eram quase azulados. Foram enviados homens para investigá-la, pois depois de descoberta, nenhum deles a deixaria. Segundo rumores, ela era tão linda, tão encantadora, que sua simples presença embriagara todos os enviados, deixando que apenas um voltasse com a notícia da morte dos outros dois companheiros. 
                 -Pois eu a vi, meu senhor. - explicara o sobrevivente à Juan - era linda como só a deusa Afrodite poderia ser. Tinha a pele tão corada quanto a dos nativos que rondam a floresta em busca de caça com flechas e lanças. Mas não era tão como eles. Não. Esta tinha cachos nos cabelos. E todo o tempo não prestou atenção à  nossa presença. Não tentou nos afastar nem se aproximou. Mulher linda, mas fria. Não importava o quanto a chamássemos, ela não virava o rosto. Tentamos fazer contato, pois Horácio já caía de amor por ela, e pensava já em desposa-la. Sabia eu que o senhor seu pai nunca concederia tal imprudência. Mas o rapaz, teimoso, não ouviu. Devo assumir que o que me salvou foi minha covardia, perdoe-me senhor, mas não fui capaz de chegar mais perto. A mulher era tão linda que me causava arrepios, e já havia aconselhado a minha esposa "Não chegue perto de mulheres perigosas, estas são capazes de até veneno soltar". Mas não foi aquela mulher quem os apunhalou, e sim, três dos maiores crocodilos que já vi em minha vida. Bem.. Não pude vê-los com clareza, mas os vi. Tinham bocas medonhas e suas caudas eram tamanhas que seriam facilmente confundidos com tubarões. Mas não há tubarões em lagos. Não me atrevo a voltar lá. O pobre do Horácio não pareceu ser o suficiente para alimentar metade do estômago de dois daqueles monstros. 
                Juan tentou perguntar sobre a moça. Mas o pobre homem não soube responder. Estivera assustado demais e logo foi mandado para a sua casa descansar nos braços da sua esposa. Antes de ir, este ainda aconselhou aos companheiros que o fizessem também, pois, mais cedo ou mais tarde, uma segunda tragédia aconteceria e, depois disso, não pararia mais, 
                       Os outros homens ficaram assustados o suficiente para manter em sua dieta apenas carnes vermelhas e frutas, bem longe do lago onde a mulher e os crocodilos foram encontrados. Mas Rui, pelo contrário, prometeu-lhes uma bela quantidade de peixes e ainda resolveria a mistério  da bela moça com que Horácio tanto desejara. Não ansiava por amor nem alguma luxúria. Só o que aquele homem carregava em seu valente coração era uma sede inesgotável por aventuras, conhecimentos e experiências. Conseguiu que um homem o guiasse até parte do caminho, mas nem sua boa lábia foi capaz de convencer o rapaz a ir com ele até o final da trilha que levava ao lago. 
                        Já passava do meio dia quando Rui chegou ao local. A superfície da água era lisa como vidro. Cristalina como as águas de uma banheira rasa. O lago refletia ardentemente o brilho do sol e iluminava tudo à sua volta. As árvores bem nutridas e carregadas de frutos maduros e suculentos, algumas flores silvestres belas e destratadas pela natureza, algumas rochas cravadas às margens, o colorido e místico fundo do lago e, por fim, a bela e esbelta mulher empoleirada na mais baixa e lisa pedra. 
                          Esta era a mais linda de todas as belezas que Rui vira em toda a sua via. E ele já vira muitas coisas na sua vida. Vira o nascer do sol, ao norte, quando as luzes refletiam nas molhadas paredes de gelo formando um grande e belo arco-íris; vira a danças das baleias de um navio pesqueiro a milhas de sua terra natal, vira milhares de pássaros voarem em direção ao sul no fim do outono, vira o mais belo dos jardins floridos com as mais diversas cores de rosas que já vira em toda a vida, mas nada se comparava àquela mulher. Ela tinha a pele num tom amendoado que apenas uma vida de bronzeamento poderia proporcioná-lhe. Tinha negros cabelos que esvoaçavam ao vento livremente sem formarem nós entre si, tinha a postura que nem mesmo uma rainha imitaria com tanta elegância e o que mais o surpreendera: Ela não tinha pernas. 
                      Logo em baixo de sua nua cintura, ela tinha uma escamosa cauda castanha que quase fundia com o tom de sua pele, brilhava  refletia a luz do sol como se tivesse sido polida e feita em metal. Oh! Como não ligara os pontos antes!? Rui encontrava-se diante da famosa rainha dos mares! Uma sereia! Mas tinha que contar isso ao mundo! E como tinha! Escreveria um livro com seu nome. Tinha que descobri-lo. Tinha que saber mais sobre sua vida! 
                       E sem mais esperar, o homem jogou seu fardo no chão e correu até a bela mulher. E como se não tivesse tido sorte o suficiente, ela virou para encará-lo. Tinha o rosto sereno e sonhador. Lembrava um felino. Feições suaves e inocentes. Puro e curioso. ele foi obrigado a parar para contemplá-lo. A moça sorriu com a cara de bobo do aventureiro e disse algo numa língua que ele nunca ouvira antes. E mesmo sem entender, ele desejou que ela continuasse a falar, só para que ele pudesse ter o prazer de ouvir sua voz novamente. 
                     E estava tão feliz, que podia morrer ali mesmo.
                     Ah, Rui, como não deveria tê-lo pensado. 
                    Como se ela tivesse ouvido seus pensamentos, a mulher ligeira com uma corça, pulou na água, nadou habilidosamente como uma cobra, veloz como um peixe-espada cortando a água com tanta facilidade com que cortou a pele do jovem abobado. Ainda vivo, ela o puxou para longe da superfície, para o fundo, que já não parecia tão receptivo quanto antes.
                   Eu queria possuir pernas, assim como você, ele pôde escutar, Queria eu, também, poder amar, assim como tantos outros que aqui apareceram, mas não importa o quanto eu queira, não sou uma de vocês. 
                      A voz era linda, assim como a coisa que o levava cada vez mais para o fundo. Cada vez mais para longe. Mas não era nisso que ele estava interessado. Havia coisas mais importantes que os sentimentos de um ser anormal. Tais coisas como: como ela era capaz de respirar em baixo d'água? Possuía ela brânquias também? Sempre chamava as pessoas para si assim? Era ela e sua espécie quem matava os marinheiros? Poderia ela entrar num barco e desamarrar um homem para levá-lo para o fundo do mar? 
               Haviam muitas respostas que o interessavam e lhe seriam úteis, apesar de ter consciência que morreria. Apesar de tudo, Ele só quis, naquele instante, saber a resposta de uma. A única que ele deixaria como último desejo não concedido, o nome de seu livro.
                E qual é o seu nome? - perguntou ele em meio aos engasgos e sob a pressão d'água em seus ouvidos. E mesmo com a tontura e atordoamento, ele lembrou da última palavras que ouviu em vida: 
                Iara.

domingo, 1 de setembro de 2013

Sublime negritude


Órbitas negras. Vejo aqueles olhinhos pequenos que me admiram em toda sua irracionalidade. Admiro-os da mesma forma. Tão pequenos... Rijos. Piscam para mim diversas vezes, e eu, absorta em meus pensamentos, não paro de vê-los. E com suas penas molhadas, naquela garoa de dezembro, voa em suas míseras asas tão minúsculas. Pequeno passarinho negro em meio ao deserto daquela chuva. Bem que poderia ser um corvo... Ou apenas um pássaro em busca de sua casa. Está tarde para um pássaro de hábitos tão diurnos como este estar por aí, voando em meio a essa chuva. Olho para cima e vejo aqueles enormes pingos a me impor medo... Temor. Desde quando fui tão medrosa? Enrolo-me em mim mesma, naquele chão de grãos tão minúsculos como o de areia da praia. Fina, pesarosa areia. O que faço aqui nesta praia tão deserta? Provavelmente para me lembrar dele... Viemos tantas vezes aqui, encostados neste coqueiro de tão suave existência! Peculiar coqueiro, imerso em meio a certos outros, em uma praia inóspita. Tinha por si só uma curvatura elegante, que lhe dava um ar de orgulho. Assim era ele. Orgulhoso. Quantas vezes olhou-me com desdém naquelas órbitas negras, tão negras como aquele pequeno pássaro que ainda há pouco admirava? Meus pés guiaram-me até ali, ao lado do coqueiro. Caminhava longe dali, procurando o abrigo do meu lar para proteger-me da chuva que viria, a garoa que estava por vir. Voltar para minha casa. E então, por meus próprios instintos, seguia até aquela praia... A praia de nossos romances que agora desmanchava em negro, com penas por todos os lados. Penas de destruição e veneno. Como se teve um fim? Não me recordo muito bem... É um passado envolto em choro inocente. Quando me lembro daquela época, vejo tudo embaçado e incolor. Ele me trouxe ali, e parecia que me pediria em casamento. Oito longos anos daquilo. Suportava tudo com carinho e paciência. Todos os maldizeres, a tormenta de palavras cuspidas na minha cara como quem não se importa comigo. Ouvia tudo em silêncio, e engolia os maldosos vocábulos. "Você é tão calada, engole tanta coisa aí consigo que tenho certeza que guarda uma podridão em si. Por que é tão apática a tudo e todos?". Lembro-me daquelas palavras que me cortavam copiosamente. Olhei o coqueiro, e esperava seu consolo. Quando me davam consolo? Estava sozinha ali, e as palavras cortantes queriam voltar a minha mente. Bloqueava-as em mim, no meu confuso pensar, mas pra quê? Estavam desenroladas... Fico mais próxima ao coqueiro, e espero o desenrolar dos fatos. Sim, viria em minha mente aquele trauma. Mas pela primeira vez todo completo. Esperei pelo pior, e engoli em seco.

Estava ali, com aquele meu vestido florido de azul, salpicado de cores, transmitindo uma alegria que eu tinha apesar de tudo. Era um sofrido relacionamento, mas gostava dele e suportava tudo com amor. Segurava sua mão, fato até este surpreendente. Fitava os meus pés envoltos na areia do pôr-do-sol, suave à minha pele. Ele me avisou que queria dizer alguma coisa ali, naquela praia. Esperei por suas palavras ansiosamente. Pensei que receberia a aliança ali. Encosto-me ao coqueiro, e esboço um sorriso de alguém vitorioso. "Eu disse que o teria... Todos diziam que eu estava me enganando com ele, mas olha aí a situação! Na praia em que começamos tudo". Ele solta as palavras lentamente, como quem as escolhe. Parecia atordoado. "Bem, Fernanda... Voltamos aqui, hein? Como tantas vezes. Mas desta vez é diferente. Acho que lhe devo satisfações. Posso ter sido um tanto grosso todo esse tempo, não? Acho que não esperava isso. Mas dei-lhe a chance de me conquistar. E agora..." Ouço tudo envolta em vitória, sentindo o sabor em meus lábios daquilo que tanto desejei no longo tempo em que estive com ele. Mário estava ruim. Ruim mesmo. Não lhe era confortável aquela situação. Apertei-lhe as mãos, e pensei ter expressado que estava prestando atenção, e que continuasse. 

- Enfim. Acho que me enganei com você. Pensava que fosse aquela mulher para toda a vida. Ingênua e frágil. Sim, você é. E até demais. Por que nunca me enfrenta? Por que sempre parece tão apática em meio aos meus xingamentos? Acredito que não me ama o suficiente. E nem eu amo você. De qualquer forma, foi uma diversão interessante, até mesmo nesta praia. Você estava confiante de que me teria, não? O cara mais desejado da faculdade. Mas estou seguindo o conselho de Ricardo para não lhe ferir tanto... Ele tem simpatia por você, Fernanda. Deve ser pena, acredito. Sua falta de atitude não me é mais suportável, não me traz mais curiosidade. Acho que já deu o que tinha de dar.
- Isso... Isso é um fim, Mário? - engulo em seco estas palavras, e eu pensava que sairiam sem falha. Erro meu.
- Mas que tola... É, Fernanda, é um fim. És tão idiota que não entende quando um cara tá terminando contigo? Já era, filha! Acabou, entende? Será possível que não entende nada disso? - as veias já lhe saltavam do rosto, e ele estava ficando com raiva. O borrão da minha visão crescia.
- Mas... Mário! Eu pensava que gostava de mim. Você disse que gostava. - me encolhi em meio a mais manifestações dele, e ajeitava os óculos com minhas mãos trêmulas, não obedecendo mais a comando algum de meu cérebro.
- (...) Sua estúpida! Nunca percebeu que eu que aguentava você em todo seu silêncio? Toda sua apatia ingênua e infeliz. Avisaram-me que era só timidez. Não, Fernanda, criei antipatia por seu ser tão sem sal. Pensei que seria mais fácil me livrar de você. Mas claro, isso só mostra como sempre erro em qualquer coisa que penso de você. - ele já levantava para ir embora, enfurecido com todo o rumo da situação.
- Seu... Argh, Mário! Você... Você não pode fazer isso comigo! - afastava-me para me apoiar no coqueiro, porque minhas pernas já não aguentavam mais suportar o peso de meu corpo. Ao ouvir estas palavras, foi pra cima de mim em um ímpeto de raiva.
- Claro que posso, Fernandinha! - falava-me com desdém. - Posso tanto que já estou fazendo. Já era pra você, já deu o que tinha que dar. Agora chora, pelo menos expressa uma vez na vida o que sente! - cuspia os versos em mim, e eu me encolhia, absorvendo aquelas palavras, ouvindo-as como quem nunca gostaria de ter a capacidade de escutar.

Observava seus olhos em mim coléricos, com suas íris enegrecidas dilatadas com o fervor da ira. Gostava de admirá-las porque transpareciam amor. Seus olhos dissipavam as trevas em mim, e acalmavam-me mesmo com suas palavras grossas e venenosas. Era só enxergá-los para sentir-me melhor. Mas desta vez era diferente... Seus olhos estavam terríveis. Não dissipavam mais as trevas em mim. Criavam-nas. E todas aquelas suas palavras... Não estavam ajudando. Pude ver a realidade, como se tivessem tirado a venda de meus olhos. Vi a cólera estampada em seu rosto, e esta foi transmitida em mim. Suas palavras eram repetidas como um disco arranhado em minha mente, todas aquelas palavras horríveis foram dispostas em meu intelecto. Eu o vi como um nada. Como um ser desprovido de amor e razão. Senti raiva. Primeiramente raiva de mim mesma por sempre ter sido tão tola com ele. Então parei de ouvi-lo. Estava prestando atenção à vozinha que vinha em minha mente conflituosa, bem lá no fundo... Estava em um tom bem baixo, portanto, atentei mais ao que ela falava. Ainda estava muito confuso.

Fechei meus olhos por um instante, e percebi que ele estava pegando suas coisas para ir embora definitivamente. Então aconteceu. Não lembro muito bem, porque tudo não passava de um borrão. Lembro-me de ouvir a voz e dar sentido a ela... Dizia que ele merecia a suave morte. Porque eu era estúpida e sempre tinha sido boa para ele, ouvindo-o, amando-o, não reclamando... Atentava a voz, e a obedeci. Abri os olhos e procurei por algo... Vi um coco a 1 metro, e corri para lá. Peguei-o e segurei com todas as minhas forças. Estamos em um boliche. Sim... Mário pagaria por tudo isso. Não morreria, claro, por que o mataria? Apenas o machucaria para que soubesse que reajo às coisas. Que sou vivente e tenho atitude. Talvez me queira de volta depois dessa. Talvez seja este o sal que estava faltando em mim... Ouvi estes pensamentos em mim e tive nojo. Nojo de mim mesma. Eu era estupidamente apaixonada por ele. Ainda lúcida, morria de amores e faria de tudo para tê-lo de volta.

O coco não estava mais em minha mão, e a lembrança se torna cortada. O que acontece agora? Esforço-me para lembrar... Remexendo uma memória antiga e cheia de conflitos. O causador da minha irônica loucura. Vejo a cena de seu rosto com uma fina linha escarlate brotando da cabeça... Havia batido a cabeça no coqueiro que estava a sua frente, levado a queda por causa do coco que joguei, logo pensei. E estava desmaiando... Peguei-o ainda acordado, e pude falar algumas palavras... Algo como, "você vai ver como eu mudei... Olhe, estou fazendo o que quero, estou tendo atitude! Você ainda me ama, não é, Mário? Eu amo você e não deixarei que se vá...". Tento lembrar, mas faltam partes... Seus lindos olhos negros observam aquela cena, fitam o nada e depois se fecham de ímpeto. Estou abrindo minha bolsa... Sim. Aquela pequena tesourinha de unha. Olho para Mário e... Há um lapso. Não há nada para ver, mas ouço minha risada triunfante, dramática. Ouço um barulho oco, duro, mas não o entendo... Será o som de sua cabeça batendo em algo? Mas então sinto que estou cortando algo com muita meticulosidade. Perfurando, retalhando, obstruindo. Sinto minhas mãos e estão molhadas por alguma coisa. Acho que neste momento já estou possuída pela insanidade, e ela me veio como uma brisa, mas não mais brisa, um furacão, pegou-me como por um acidente. Seguindo aquela voz da cabeça de início.

O meu peito dói, mas não é mais lá naquela lembrança... É aqui. A dor nasce em mim, remoendo aquelas lembranças pela primeira vez, e dou-me conta do que fiz. Monstro. Horrenda. Terrível. Pena que não existe a prisão perpétua... Deveria para alguém tão medíocre como eu. Volto a concentrar-me na lembrança, e recordo-me da ligação confusa que fiz pela manhã... Ouço o som de uma ambulância, e de um choro repentino. Vejo-me agora cambaleante pela rua, e agora me encontro cuspindo umas palavras de forma rápida e confusa para um policial que estava em minha frente observando-me e ouvindo-me atentamente. Era clara esta parte. Confessava o assassinato de Mário... E chorava em meio a tudo isso. Dizia não entender o que havia se passado.

Lembro-me dos dias na prisão, da minha mãe chorando por mim quando me visitava, não entendendo o por quê de sua boa moça estar ali. E volto ao local ao qual me encontro. O lugar de mim e Mário... Encostada no coqueiro de nossos romances. O coqueiro torto na areia, o único torto em meio a todos os outros perfeitos. No dia em que saí da prisão por meu erro de tantos anos atrás... Saindo da prisão mais cedo pelo excelente comportamento. E por quê? Por que tive de viver até esse dia? Por que tive de ser levada pela insanidade logo naquele dia? Por que paguei por meu erro apenas com uma prisão? Mário pagou com a vida... Com aquela vida de moço rico. Talvez eu o amasse mesmo como imaginava... E matei quem amava tanto... Como? Fatídico dia daquele alvoroço... Olho para minhas mãos miúdas, não acreditando como foram capazes de cometer tal ato. O choro estava preso, e eu já estava tão fria e triste por tantos erros, desacreditada de mim mesma, que tudo parecia definhar ao meu redor. O que eu era? O que poderia ser? Uma assassina. O sangue de Mário sempre estaria em minhas mãos. Sempre, não importa quanto tempo passasse. Eu o havia matado. Vi em minha memória cheia de lapsos.

E as lágrimas vêm como um lamento profundo. Como um alívio de tantos anos, como uma libertação em um abrir e fechar de olhos. Lágrimas simples e naturais. Então depois de tantos anos, enfim posso chorar amargamente em meio à lembrança triste e infeliz, salpicada em escarlate. Olho para o horizonte, e admiro o céu alaranjado, com o sol a espreguiçar-se em si mesmo, superado da chuva de ainda há pouco. O arco-íris acima das folhas do coqueiro selava o compromisso entre os cosmos naturais. Procuro o pequeno pássaro e lá está ele, de volta ao coqueiro. Olhava-me curiosa, e eu estampava toda a minha comoção. Volto a admirar seus olhinhos, desta vez com tudo borrado pelas lágrimas. E podia ver e admirar apenas a sublime negritude de seus pequeníssimos olhos. 

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Uma palavra

Voltei. Voltamos. Pensei em desativar, e por quê? Porque não estou cumprindo com o propósito do blog... Este blog não foi pensado para escrever aqueles textos que vêm na telha, mas tem um sentido... Ou tinha. Mas não posso deixar de escrever. A mente que se abre a uma nova ideia jamais volta ao seu tamanho original. É de minha alma. Vem de dentro... E fico tão feliz com isso. Emotion. Espero não precisar ficar tão longe novamente... Tão distante. Escreverei quando der, quando quiser, porque quero liberdade. Vamos esquecer os dias contados, e os dias de organização... Vale para nós duas, eu e Lídia. Vamos trabalhar com surpresas, e não com prazos. Eu sigo a liberdade, e escolhi as palavras, e não as contadas e presas. Até o próximo post. 

E que dure o quanto puder, o quanto quiser.


O importante não é como escreve, e sim o que sente quando escreve.


Ninguém nunca sabe quando aquele "até logo" poderá ser, na verdade, um adeus.


P.S. Próximo desejo... Vamos mudar o design deste blog, e já! Aceito auxílio de qualquer alma boa e nobre. E aqui deixo meu convite, -q.

O castigo de amar


E por te amar deveras muito, deixei você ir. E por te amar mais do que a mim mesmo, perdi a chance de te ter. E por te amar tão pura e belamente, desprezei você. Perdi-te por entre meus dedos, quando já te tinha em mãos. Amei-te tanto, mas tão demasiadamente, que pedi que fosse embora. Pedi que arrumasse suas coisas, que guardasse suas pequenas roupas, as dobrasse tão cuidadosamente naquela mala suja e velha que você guarda com tanto carinho. Pedi que se fosse, e que não voltasse. Pedi tantas coisas...! E por que fizeste? Antes mais nada não fizesse, porque queria que fosse mais forte do que eu e ficasse. Antes mais nada guardasse a mim, levasse a mim ao invés da mala suja e velha...! Por ser tão inocente, tão simples e infantil, absorveu minhas palavras como absorve o oxigênio. Voltará a mim? Espero que volte... Já te tinha, mas deixei-te ir. Não fui atrás, e observei suas lágrimas com dor. Mas, impassível, deixei você ir. Deixei que levasse suas meias sujas, seus livros antigos e cheios de mofo, seus móveis sem-graça, suas bugigangas que tanto cuida. Deixei ainda que esquecesse seus óculos de aro fino, aqueles da cor dos teus olhos, aqueles, tão fino quanto você. Pelo menos isso guardarei... Não voltarás, já sei disso. Amo-te tanto que não sou capaz de ir atrás de você, pedir para que volte. Amo-te tal como as estrelas estão no céu, com a certeza de um gavião ao encontrar sua presa. Amo-te, e por isso sei que não podes estar comigo... Porque eu não sou. Sou o que não deveria ser. E prefiro o sofrer comigo mesmo a que com você. Meu sofrer é mínimo, e minha dor, incapaz. Tola, podre... Levo-a comigo, e me orgulho disso! Por que não levar você? Por que não aceitar seu amor tão grande e ingênuo, e ser egoísta de tal forma a guarda-te só para mim? Inócua criatura, pura e imaculada criança, não chores por mim... Peço que vá. Vá de vez. Sabe como dói rejeitar todas as suas ligações? Sabe como dói olhar aqueles seus óculos em minha cabeceira e lembrar de cada olhar furtivo seu? Como faz meu peito tremer ao lembrar da cor dos seus olhos, ou do sabor dos teus lábios de mel? Teu seio virginal antes fosse minha maior lembrança...! Quiçá escolhesse tua casta inocência de menina para recordar ao invés dessas traços detalhes com matizes de branco puro, esse esboço distinto e forjo, um teço de traças deveras, porque muito enlaça e aflige, porque só tu és a dona do olhos brilhantes, do que fascina e atrai pelo simples e ordinário. Porque és ordinária, tu, mulher. Ordinária porque és simples! Simples ao olhar, simples ao se apaixonar. Porque é essa tua espontaneidade que simplesmente maquina, esta que planeja a derrota de minha astúcia. Sinto sua falta, sim. Sinto sua falta mais que a mim mesmo. Esquecesse eu a minha identidade, e todo resquício de um individual que ainda existe, fosse meu ser um vegetal, um animal, um qualquer, um repetente, um esquecido da memória. Um indigente, antes mais! Ah, quiçá, sonho e devaneio nesta quimera. Fantasio, imagino, é a utopia de te ter como paixão. Levaste a mim, e amo você por não poder me aceitar. Por não ser completo, e por precisar de você mais do que a mim. Por querer você ao meu lado. Por querer te ter, incessante, curiosa, simples, deverasmente. Por tremer meu coração como um garoto nervoso pensando em seu primeiro amor. Por me tornar criança, quando eu queria ser adulto, e corajoso para te ter. E sabe o que percebo? Que eu amo você, sim. Mas deixei-te ir... E não foi pelo amor. Mas amo menos... Amo menos porque meu medo é maior. O pavor de deixar de ser eu para tentar ser você. A aversão de esquecer a mim, para dar lugar a você. O pânico em poder te ter e ser, e ser feliz com você, por você. É fraqueza, covardia, temor... Chame do que acredita ser. O egoísmo do egocentrismo. Ame mais a quem te amar como deve. Como você deve ter por mérito. Desmereço e faço jus ao covarde. Porque penso, deixei-te ir. E porque amo, tenho teu remorso, e o guardo como meu. Suas lembranças em minha mente, claras como meu medo e covardia. Amo. Amo como pude, amo como desejava, mas renuncio. Renuncio a mim, porque a outro não pude. Amar por amar, e enfim deixar, e esvaziar, esquecer. Amar? Amar como posso, enquanto a fragilidade não me dispersa. Vás-te, e com demora. Já sinto teu caloroso abraço em mim. Vás-te de minha mente, do meu pensar! Porque a felicidade é meu castigo... E por isso a deixo ir. Meu adeus.

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Carta para a Lua.


Ei, Lua, Poderia me fazer companhia por um tempo? 
Ei, Lua, poderia responder o porquê dos outros viverem? Seria apenas para depois morrerem? Por que para trás deixam aqueles que mais os querem? Por que a vida tem que ser tão delicada, tão frágil, tão fácil de ser levada? Estive um tanto próxima da Morte ultimamente, mas acredito que ela não tenha gostado muito de mim, ou talvez apenas exerça seu trabalho com profissionalismo... Talvez a Morte seja apenas uma gatuna obcecada. Sinto que provavelmente seja compulsiva. Mas há a possibilidade dela ser apenas uma vítima de uma ordem superior. Caso eu esteja errada em julgá-la assim, perdoe-me, por favor. De forma alguma quero que a Morte seja culpada por tal crime se esta for inocente. Pois, de alguma forma, sinto, com grande pesar, uma imensa vontade de condenar aquele que impôs meu sofrimento.
Ei, Lua, por que não levar a mim? 
Ei, Lua, por acaso achas que não sou boa o suficiente para ser levada pela Morte? Achas que ela leva apenas àqueles que mais são preciosos? Somente os mais puros? Ou será que de alguma forma eu sou apenas mais uma que conseguiu atrair a fúria desta e agora recebo dela sua vingança? 
Ei, Lua, minha amiga, tenho medo. 

Ei, Lua, se, de alguma forma, perder você também? Pode a Morte levá-la? 

Ei, Lua... Talvez não seja assim tão ruim. Talvez ela volte para me buscar também. Ela veio pelo meu amigo. Talvez ela esteja apenas levando-o para um lugar melhor. Ainda que eu custe a acreditar, por ser que haja uma recompensa maior lá, no Além. Sinto um frio no estômago. Talvez ela esteja voltando novamente. 
Ei, Lua, acho que já a vejo. Ou talvez seja apenas um breve presente de minha ansiedade. Sinto falta dele. Mas pensar que a Morte possa levar a mim também não me assusta. Se lá, do outro lado, for ensolarado e forrado com o mais verde dos campos, eu ficarei feliz em acompanhar aquele que me foi roubado numa nova aventura. Caso for frio, escuro e solitário, eu o abraçarei, e não deixarei que ele se sinta só. Manterei-o aquecido com o meu calor, trarei sua felicidade com minhas palavras e direi o quanto senti sua falta. Talvez assim o escuro tenha um pouco de luz. Porém aqui é escuro e, enquanto não chegar lá, não gastarei essa última vela. Eu a guardarei em meu casaco para trazer a ele este brilho. 

Ei, Lua, torça por mim. Logo irei ao encontro dele. Espero que você receba esta carta em segurança. Sentirei saudades, mas devo partir.
                         Obrigada por me fazer companhia enquanto ele esteve longe.
                                       Amor
                                                Amanda.

terça-feira, 25 de junho de 2013

Reflexo da Vida

A ideia era simples. Ela deveria encher a bacia com água. água limpa. Normal. Simples. Era dia vinte e quatro de junho. Os tradicionais da sua rua pulavam fogueiras em seus quintais. Já Isolda tinha algo diferente a fazer. Algo simples que suas amigas e ela decidiram fazer. Poderia ser chamado de teste de coragem. Apesar de ser apenas uma bacia prateada com água dentro. Para alguém não supersticioso, A jovem estava bem nervosa. Deixou o secador ao seu lado e, mesmo com o cabelo arrumado pela metade, aproximou-se do recipiente. Suas mãos suaram em volta da bacia e seus olhos se recusavam a abrir. "São João está dormindo, não me ouve não. Acordai, acordai, acordai, João." cantavam as crianças na rua. Era um som alegre. Encorajador. A música agitada apenas incentivava seu estomago a se contorcer e se enroscar em suas entranhas. É claro que era apenas uma provaçãozinha... Mas... Céus! De onde vêm as lendas? Como uma boa estudante de história, Isolda sabia que mitos não vinham sem fundamentos. "se você beber leite depois de comer manga, terá dor no estômago", isso era para que os antigos trabalhadores rurais brasileiros, que, por haver mangueiras em abundancia, deliciavam-se com esse saboroso fruto, não bebessem o leite das fazendas, os donos de terra criaram essa história. Bem... Vendo por esse lado... Poderia ser um simples mal entendido. Talvez tivesse existido uma mulher muito feia que tentou suicídio após ver sua própria imagem refletida na água da bacia. Espere um minuto, segundo o que havia sido contado: "se você ver o seu reflexo, você estará vivo nesse mesmo dia do próximo ano. Caso contrário...". Bem, a história poderia ser de uma bela donzela que apreciava demais sua própria aparência, então quando não pôde ver seu reflexo, ficou tão chocada que acabou por se matar.Poxa! Haviam várias explicações! "Atirei rosas pelo caminho. A ventania veio e levou. Tu me fizeste com seus espinhos uma coroa de flor." Cantavam os vizinhos. Sim, não havia motivos para se assustar. Isolda respirou fundo e abriu os olhos. Mirando ela, do fundo da bacia, havia um rosto pálido e magro. Uma donzela muito bela a encarava. A jovem estudante sentiu um aperto no coração. Com seus oitenta e cinco quilos, jamais poderia ser a dona de tão magras feições e olhos tão avermelhados. Na fração de segundos que Isolda pôde encarar a moça do fundo da bacia, ela percebeu que seus cabelos molhados boiavam e se embaraçavam na água. Aquele rosto não era apenas uma imagem, era material. Como reflexo, a jovem estudante universitária jogou-se contra a parede para se afastar da bacia e a chutou com o pé. A água derramou. Para alívio dela, apenas água, nada mais havia dentro da bacia. Isolda pôde respirar recuperada de seu susto, imaginando como suas amigas haviam preparado essa peça com ela - bem que a pessoa era bem parecida com Melissa! - por algum minutos enquanto ligava o secador para continuar a arrumar os cabelos, até que escorregou e, deixando cair o secador de sua mão, não pôde viver até o dia vinte e quatro de junho do ano seguinte.


domingo, 16 de junho de 2013

Anel de dever


Círculo estúpido. Circunferência sem fim, a representação da fidelidade. Aquela que me lembra dos deveres, das responsabilidades. Admiro a aliança dourada, que antes me extasiava por sua beleza, seu esplendor glamouroso. Trocamos cedo estes anéis, e a responsabilidade me corroía desde aquele tempo. Mas era sutil. Sentia o fulgor do amor em mim, vi-me nele e confiei nele o meu coração. Arrependimento? Não, culpa. A dor da culpa. Eu sinto muito, meu amor. Perdão por minha culpa, por minha loucura. Casamo-nos, nos descobrimos e nos enlouquecemos. Perdi o ar por ele, e o ganhava de volta a cada suspiro. Oh, que bons tempos... O início de tudo. A paixão nua me envolvendo, corroendo meu corpo e transformando-o em brasas puras. Ela me possuindo, me dando prazer, desejos esculpidos no corpo dele. Descobri-me nele... Pude compartilhar essas sensações incríveis. Extasiava-me nos seus carinhos, no seu toque profundo. Infeliz amor, discórdia da paixão... Eu confiei nesses tolos sentimentos. Pensei saber e entender o que sentia. Bastou-me vê-lo, e sim, reencontrá-lo. Estava no passado sujo e intocado, esquecido. Apertei minhas mãos nas do meu marido, e pedia silenciosamente o seu alento e acalanto. Pedia pela fuga dali, ansiava por ela. Bastou-me vê-lo, rever aqueles olhos, oh, sim, aqueles olhos voluptuosos, fanfarrões e brincantes. Olhou-me de cima a baixo, despia-me com aquelas negras órbitas. E eu ouvi dos seus lábios aquela voz rouca e sombria, elogiando que o tempo não me fez diferença. Ele pôde enxergar minha alma aflita, que reacendeu-se pela sua voz. Viu-me impura na pureza do meu bege encorpado com seus muitos detalhes. Ele viu-me, e pareceram anos aquele frisson que me paralisou.

Necessidade de organização


Ufa... Há quantas semanas estou longe? Apenas uma palavra: Perdão. Bem, odeio ter de deixar as coisas assim pela metade, coisas a fazer. Os afazeres me torturam a cada segundo, e por mais que eu tente esquecê-los de todas as formas, fica um pontinho lá na consciência me avisando dos deveres dos quais não fiz ainda... E ainda tem as vezes das quais me esqueço. De qualquer forma, estas não contam. Foram semanas complicadas, cheias, cansadas. Dias e noites cinzas sem as palavras reconfortantes. Tenho me dedicado a certas histórias em particular, e depois vos falarei com toda minha educação polida os contos aos quais estou me dando ao luxo de criar. Ao todo, tenho três bem malfeitos, e nem sei se posso considerá-los contos. São apenas histórias em que eu pude pensar e criar. Estão inacabadas de qualquer forma. Há toda aquela ânsia inicial de terminar, toda aquela euforia de escrever capítulos e mais capítulos, mas aí chegam meus terríveis afazeres de Ifsofredora... É melancólico deferir tais palavras. Não tenho sido muito organizada, e as pendências de matérias ousam-me perseguir, e tenho de cuidar delas para que não causem alguma repetência, -q. Mas seis meses inteiros sem estudo...! Minha nossa, seria um excelente descanso seis meses interinhos de preguiça e vãs quereres. (Já que se passam seis meses sem ir pra escola esperando o próximo módulo, no caso ano, chegar, para que se possa repetir de ano, porque toda a organização destes tais exibidos Institutos Federais é ministrada em módulos, períodos de seis meses; logo uma repetência faria o tal aluno reprovado ficar seis meses sem estudar esperando a turma anterior ao ano que ele deveria estar começar um ano novo para este aluno juntar-se aos seus mais novos colegas. Complicado de entender? Espero que não). Mas não posso me dar o luxo. O descanso final virá com a morte, e não a espero ansiosamente porque amo esta vida a qual me enlaço a cada dia com mais deveres, sonhos e prazeres. E claro, com as tristezas e aborrecimentos casuais. Normal, a vida a bater na porta. Viver essa vida, absorvê-la, aspirá-la com todas as minhas forças. Posso abraçá-la com tudo o que posso ter para deixá-la comigo, porque gosto dela. A vida é uma coisa engraçada, e vivo a cada dia com ela para saber o que ela pode me reservar a cada dia. Sempre uma caixinha de surpresas esta danada. Fazendo-me fugir da rotina, arranjando-me coisas as quais nem me imagino nelas às vezes... Todos acasos do destino da vida. Bem, voltando aos meus deveres demasiadamente cansativos (mas interessantes, porque os amo por deixarem-me bem ativa, já que não suporto a altivez da inércia. Gosto dos afazeres porque me fazem sentir viva, e sempre procuro mais para mim por isso. Fatos da vida desinteressantes que não fazem sentido nenhum você aí lê-los com tanto afinco por serem MEUS fatos de vida desligados de sua existência, caro leitor. Mas bem, deixemos para lá. Continuemos), fui, no final do mês passado e voltando no início deste mês, a um espetáculo estudantil chamado CONUNE. Para quem não sabe, não me conhece ou mal sabe que eu, Allanis Dimitria Pedrosa, existo, há uma certa característica em mim que ousa lutar. Gosto de política e enrolo-me nela como nas palavras. Gosto da sociedade e em tudo que a cerca. Suas vertentes, seus problemas, seus atos e “desatos”. A política em prática, desmiuçada pelo povo que questiona e implica com o tal Estado. O CONUNE, o congresso que acontece a cada dois anos para a escolha da nova gestão da UNE (União Nacional dos Estudantes), e apresentação de temas para serem debatidos pelos próprios estudantes, reunindo-os em um só lugar, com toda a maconha exalada para lhes mostrar, ó, sociedade, os dilemas os quais são dispostos a todo o povo e que este mesmo fecha os olhos para não ver os tais problemas. Por mais que existam muitos acomodados que vão para o congresso, em Goiânia, pelo simples ato de fumar, se acabar e dar a desculpa de estar aproveitando a vida como jovem em evolução (ou seria retrocesso?), há uns remanescentes que lutam pelo movimento estudantil, e não se conformam com este Brasil desse jeito, que finge ter dado conta de todos os problemas escondendo a sujeira debaixo do tapete. Enfim, não falaremos de movimento estudantil neste... Como é o nome mesmo...? Nesta postagem. Desculpe o esquecimento. Só gostaria de dizer o que tem acontecido nestes dias. Estou sendo muito extensa... Vou tentar resumir. Enfim. Muitos afazeres, trabalhos de vídeo que na verdade deveriam ser chamados de filme, viagens de congresso com quase 3 dias na estrada com um ar frio e melancólico de um ônibus chique do IF, relatórios extensos os quais comprovam que faço curso técnico em Química, e não só um Médio desastroso... Deveres. Deveres os quais me orgulho em cumpri-los, mesmo que às vezes nas cochas. Mas estava com saudade de escrever... Contos não são a mesma coisa. Falar por aqui até que é reconfortante, menos solitário... (Tá, até parece que alguém está lendo essas ridículas palavras confusas de uma debilitada estudante que para a cada segundo este texto só para pensar na pesquisa de Espanhol que deveria estar fazendo agora. Desculpe de novo, e.e.). Bem, é isso. Deixo-vos um pequeno texto ainda hoje, creio eu, e é de tema conflituoso... Amores que voltam à tona. Só um passado que volta a ser remexido. Apenas uma história, meus caros. Espero que gostem. Mesmo não os conhecendo, gosto de vós profundamente por lerem estas pobres palavras militantes que anseiam pela leitura de si mesmas. Espero não deixar-vos tão órfãos novamente de meus textos infelizes. Tentarei organizar-me mais e postar nos domingos com a pontualidade de costume. Despedidas pessoais e ocasionais a cada um. Podem traduzi-las como abraços calorosos e beijos tímidos no rosto. Ah, e acompanhadas de um “muito obrigada por lerem este blog perdido pela web”. Até mais.

quinta-feira, 30 de maio de 2013

Meu Pequeno Fardo

Sempre estive andando. Não posso parar. O que aconteceria se eu o fizesse? Talvez tudo fosse chão abaixo. Talvez tudo o que carreguei durante todo esse tempo caia. Não quero perde-los. Não vou largá-los.   Continuarei a carregá-los nas costas. Mas são tantos. Por onde passo carrego sentimentos e sonhos que estão perdidos pelo caminho, pensamentos antes pertencidos a estranhos. Eu os carrego na esperança de algum dia poder entregá-los aos seus respectivos donos. Mas eles se apegaram a mim. Não param de aparecer. Está ficando cada vez mais pesado. Está ficando cada vez maior. Fico me perguntando qual foi a ultima vez que vi o céu. Há vários anos ando por esta avenida, mas a carga é tão volumosa que cobre parte dos meus olhos, é tão pesada que ando inclinada há um tempo. Mas está tudo bem, porque eu a quero. Mesmo os pesadelos, mesmo os sentimentos negativos, mesmo as ideias falhas. Apesar dessas, também tenho ambições, desejos, esperanças e felicidades, mas entristeço-me ao lembrar que alguém poderia ter perdido pesos tão importantes. Tento esforçar-me para olhar o céu. Mas são pesados. São tantos. Poderia simplesmente deixá-los no chão e livrar minhas costas, mas não posso abandonar algo que já foi deixado por alguém. Deve ser doloroso perder a esperança, um amor, uma paz. A avenida é sempre tão deserta. Gostaria que tivesse alguém por aqui. Quero perguntar se é possível que essas emoções voltem para suas origens. Mesmo a depressão e a angustia merecem ter um lugar especial. Ultimamente muitos sentimentos têm entrado em conflito em minhas costas. 
Quero olhar para o céu. Não entendo de constelações. Não sei me orientar por estrelas, mas estas me fascinam. Eu quero vê-las. Mas não posso. Tenho que carregar meu fardo. 
Ouço uma voz. Não consigo compreender o que diz. 
Não questionei sua origem. Seria este apenas outro perdido? Apenas continuo a andar. Não posso parar. A voz torna a falar algo. Eu não compreendo. Não falo sua língua. Essa voz não é de um sentimento. Parece uma fusão. Uma união de várias características concretas e abstratas. Esforço-me para vê-lo. É diferente de tudo que já vi antes, porém, me é familiar. De certa forma parece comigo, mas é mais robusto, tem cabelos mais esticados, mais curtos, suas roupas são mais limpas, suas costas são eretas, há um pouco de pêlo no contorno de seu queixo, não consigo ver acima de seu nariz. Meus olhos doem com o esforço. Meu peso é aliviado. Ele tira parte de minha carga e joga no chão. Não tenho tempo para repreendê-lo. Não posso parar. Apresso o passo. A mágoa continua comigo,mas a felicidade segue seu caminho, espero que consiga achar sua terra natal, mas a avenida é longa, eu já andei muito. Minhas pernas doem. Mas sinto-me mais leve. Isso é bom? Ele está libertando a mágoa, a ira, a esperança, o desprezo, a confiança... Fio por fio ele as desamarra de minhas costas. Meus sentimentos estão fugindo. Quero que voltem, não quero sentir a presença da solidão novamente. Esta nunca se vai. Talvez estivesse presa num ponto cego em minhas costas, pois não a sinto mais. Todos se foram. Sinto-me tão leve que é como se eu pudesse voar. Sem explicação começo a chorar. Não suportando o peso leve e sem obrigações de meu corpo, minhas pernas cedem. Há quanto tempo não sento no chão? Meus pés agradecem. Agora posso olhar para cima. Posso ver o céu estrelado. Posso ver com clareza o rosto daquele que me livrou da solidão e de minha quase eterna caminhada. Mas não posso mais avançar. Não tenho energia. Foi-me tirada ela, junto com a esperança. Quero agradecer a ele. Quero pedir que fique, para que a solidão não mais volte, mas não entendo sua língua. 
Acho que ele entende a minha. Ele me carregou em suas costas e começou a andar. Agora eu seria seu fardo? Será que ele também sentia a solidão. Não havia mais ninguém por lá. A avenida continuava vazia. O fardo que costumava ser meu ficaria bem, ele tinha esperança e instinto, agora eu só posso fazer uma coisa:  apenas confiar naquele que me carrega. Devo apoiá-lo. Não devo impedi-lo de ver o céu. Este estava lindo. Haviam muitas estrelas. Eu não poderia dizer o nome de nenhuma, nem em que direção seguimos, mas estava tudo bem. Pois agora não havia preocupação. Havia apenas o céu estrelado e a luz. Luz? Será esta a primeira vez que vejo um novo dia?

domingo, 26 de maio de 2013

Correntes da alforria


Vivo preso dentro de mim mesmo. "Alforras" que prendem meus pés, laços que aprisionam meu corpo. E doam-me máscaras. A máscara do sorriso, a máscara do choro, a máscara do se importar. Fingir porque ensinaram-me desde o início. Os pensamentos não existem, mesmo que haja uma nuvem deles rondado-me. Questionamentos que me perturbam, e não posso satisfazê-los. Não permitem... Um robô na sociedade, esta mesma que cria os estereótipos. Leis naturais, leis a serem obedecidas, os tais deveres. Imposição deles, os eles. Não há um nome, não há a certeza do que seja. Apenas deve ser assim e são eles. Eles que mandam e me prendem.

domingo, 19 de maio de 2013

Delírios do vício


Aspirar aquele cheiro novamente... Odor imprescindível. Entram em meus pulmões e por lá se instalam. Enigmática fumaça inebriante, devanear na sua confusão. Abro minhas narinas para senti-la melhor; oh, vício! Sentir o desejo pela fumaça, contaminar o ambiente com ela, deixá-la queimando dentro de mim. Queimar meus pulmões, meu coração, meu cérebro, meu fígado. Leve-me embora com suas cinzas, faça-lhe delas minhas amantes, minhas cinzentas paixões; minhas. O resto da sociedade suja e infeliz. O mundo está em guerra e ninguém me falou... E eu aqui com minhas baforadas, perdida em suas cinzas inescrutáveis, escondida pela nebulosa fumaça, enquanto se matam entre si. Estou em minha morte lenta e pecaminosa, absorvendo a nicotina dos mui cigarros a mim dispostos. Que se matem, pulmões, procurem o ar puro debilmente, suguem-se, procurem a vida, e lhes dou apenas as toxinas enevoadas. Não importa a vida, não importa a morte. Quero apenas esse torpor que enebria meu corpo, o prazer da fumaça. Círculos envoltos na cabeça, no teto. Tudo cinza.

domingo, 12 de maio de 2013

Vida interrompida


Leve protuberância... Passa as mãos suaves pelo corpo, passeia pelas curvas incertas. Mansamente desliza as mãos abertas pelo corpo nu, suave ao toque. Pele macia, cor de leite. As mãos fecham-se no ventre, e de repente param. Um ser dentro dela, desejoso pela vida. E ela pensa... Reflete. Vida de desleixo, mais despesa, a chateação a bater em sua porta. Sacrilégio ser sempre tão descuidada. Sempre tem de acontecer, e por quê? Golpeia furiosamente aquela protuberância, continua a socar aquela estupidez de dentro dela. Parasita que suga suas energias, flamejante a viver no escarro desse mundo, assim como ela, um vivente na miséria, da rejeição.

segunda-feira, 6 de maio de 2013

Chuva negra


Eu sou a chuva que a salva...? Pequenas gotas caindo pelo vidro do carro. Fila de gotas e mais gotas. A chuva fica mais forte e vira tempestade. A paisagem corre, cegante, querendo alcançar o horizonte. As árvores, aflitas, vão para lá e para cá, seguem o vento fugaz. O capim alto, suas gramíneas, dançam na chuva, criam seu próprio balé. Correm... Correm para chegar além do horizonte. Será que como elas eu nunca chegarei até ela? Os trovões tremem o chão, os raios invadem o céu, tirando fotografias do caos chuvoso. Será que posso lhe trazer caos? Poderia invadir o seu céu e por lá ficar? Chegar no céu da sua boca e sentir seu sabor.

Nota de esclarecimento #1



Second chance...

Cof, cof.

Boa noite, meus caros...! Olá! Esta é a minha primeira nota de esclarecimento, e espero realmente poder esclarecer, e não só colocar um punhado (grande) de palavras sem sentido aqui. Em nome de Lídia também, venho por meio desta nota pedir encarecidamente perdão à vocês, queridos leitores, que com tanto afinco, curiosidade, atenção e respeito vêm, copiosamente, ler os textos que deveras complica e expõe nossos pensamentos e emoções, nossas criações nuas e cruas. Pedimos perdão, com humilhação decente, pela semana faltosa, em que deixamos vocês ao léu, sem textos e quaisquer explicações para suas faltas. Infelizmente, por problemas pessoais ou até puro esquecimento (irresponsabilidade level 200), deixamos de postar por aqui nossas criações da semana. Perdoadas? Esperamos sinceramente que este acaso lamentável não ocorra novamente. Agradeço a atenção e o respeito dos meus caros, o LD agradece sua preferência, -q. E já que vos falo diretamente, sem ser por páginas de teste ou textos por meio indireto, aproveitarei esta oportunidade. Como estão vocês? Clichê esta frase, não? Não é a falta de criatividade, realmente gostaria de pôr essa questão à prova a você, meu caro. Tantas vezes nos preocupamos demasiadamente com os afazeres diários, os muitos e incontáveis deveres, que deixamo-nos a vida no relento... Preocupamo-nos com tudo, mas mal paramos para pensar na oportunidade de vida em que nos é dada todos os dias. Oportunidade de felicidade, de compreensão, de respeito; uma dádiva. Não necessariamente um apelo à bondade explícita, mas também à maldade, pois cada um tem sua forma de agradecer pela vida, sejam lá suas crenças, conceitos e formação que pode possuir. Não nos prendamos aos deveres, mas separemos um tempo para reflexão de nossas decisões e escolhas... É importante aproveitar cada momento, cada oportunidade que a vida nos dá. Porque no fim, o que apenas sobrarão são as lembranças... Lembranças de momentos já vividos. E com a reflexão, abre-se a mente, está disposto e receptor de novas ideias, já que o humano é um vivente mutante, que se adapta, pensa, escolhe. Proponho-nos à reflexão diária, à exposição de conceitos e ideias, à própria capacidade de pensar para ser aproveitada; esta que tanto nos aflige e ao mesmo tempo nos colore e diferencia. E este é o recado que deixo à vocês, meus queridos leitores. Espero não ter sido muito demorada. E mais uma vez agradeço por lerem, por se dedicarem a nós com sua paciência. Mesmo eu ainda não suportando esta triste ideia de me expôr completamente, de jogar as páginas soltas de um diário aberto aos quatro ventos, ainda espero pacientemente pela descoberta destas palavras humildes e confusas... Por quererem descobrir-se em você, por ansiarem pela compreensão, estão aqui. Querem se descobrir para se tornarem completas. O que seriam das palavras sem os tais entendedores que se esforçam por compreendê-las?

"Perder tempo em aprender coisas que não interessam, priva-nos de descobrir coisas interessantes." Carlos Drummond de Andrade.