domingo, 3 de novembro de 2013

O Motorista

Sempre quis saber o que se passava na cabeça de um motorista de ônibus. 
Antes, quando era mais jovem, imaginava que seria uma motorista de ônibus. Em minha inocente cabeça, acreditava que minha vida seria uma grande aventura, conhecendo lugares novos, ajudando pessoas a irem a quaisquer lugares que quisessem ser levadas e dirigindo, pois em minha infância, dirigir era legal. Quem sabe eu também teria um ônibus personalizado? Só na quinta série que eu fui descobrir o motivo deles terem cores diferentes.
De qualquer forma, com o passar do tempo acabei por me esquecer desse sonho estranho e só voltei a me lembrar quando me dei por mim pensando no que o motorista de ônibus deveria está pensando. Tanto ele quanto a cobradora (que por um motivo, por mim desconhecido, usava uma meia arrastão por baixo da calça social que vestia), queria saber o que ambos pensavam. A finalidade? Bem, nem mesmo eu sei. O motivo? Ok, era meia noite do dia 31 de outubro e eu tinha pegado ônibus. Eu era a única entre tantos assentos vazios. Era fácil imaginar que aquele motorista poderia se esquecer da rota e ir direto ao ponto final. Mas não era bem isso que enchia minha cabeça.  
Assim que eu entrei no ônibus, os dois passageiros que lá estavam desceram - não antes de jogar gracejos à minha fantasia. Normal. Na festa acabei por perder alguns pertences. Era a primeira festa festa que eu fui. Havia luzes, muitas pessoas, muita bebida, muita música e muitas fantasias. Havia ido com uma amiga e acabei por perdê-la umas três vezes e seguindo outra chapeuzinho vermelho. Eram três delas lá. Uma das vezes que consegui reencontrá-la, ela estava xavecando um lobo, e tenho certeza que aquele também era mau. Foi mais ou menos naquela hora que perdi minha bolsa. Percebi quando, tentando se livrar de mim, Carol perguntou-me se não tinha trazido uma comigo. É incrível como uma pessoa consegue perceber esse tipo de coisa no desespero. De qualquer forma, quando achei a bolsa, apenas as minhas roupas normais haviam desaparecido. E fiquei tão chateada somando minha solidão no meio da dança bêbada dos veteranos que acabei por deixar a festa vestida de noiva cadáver. Não que fosse uma noiva de verdade. Era apenas um vestido de formatura rosado que eu havia acidentalmente rasgado e minha irmã mais velha customizou para eu ir. Era um tanto vergonhoso, a parte da frente era mais curta que a de trás e minha irmã me obrigara a usar uma meia alta que mostrava as presilhas em minha cocha, além de ter me maquiado profissionalmente. Pode parecer estranho, mas ela aprendeu tudo na internet. E agora eu pagava o pato. Fiquei esperando na parada e ignorando os convites para carona que me apareciam até finalmente pegar o ônibus. Quando entrei, a primeira coisa que reparei foi no olhar cansado do motorista. 
O motorista era um homem de meia idade já começando a ficar calvo. tinha a pele amendoada e orelhas tão grandes quanto uma orelha pode ser. A pele era suada e ele levava consigo uma garrafa de água, junto ao banco. O motorista era um homem cansado. Percebia-se isso por seu olhar. Gostaria de saber o que ele estava pensando. Gostaria de saber se estava cansado apenas por ter ficado o dia inteiro (ou parte dele, nunca interessei-me em pesquisar sobre o horário de trabalho de um motorista de ônibus, apesar de minhas antigas especulações da infância) trabalhando, ou se havia algum problema dentro da casa dele. Talvez tivesse brigado com a cobradora de aparência suspeita. Minha ideia mais confiável era que ele simplesmente estivesse aborrecido por ter que dirigir para apenas uma pessoa. O pobre motorista estava lá, cansado, e nem para ter pelo menos mais pessoas lá, para desfrutarem de seu esforço, para ele saber que valeu a pena. 
Ou talvez fosse o contrário. Talvez o homem estivesse apenas cansado por, durante o dia, o ônibus ter estado lotado demais, então.. Estaria ele bravo comigo por ter entrado lá? Mas antes não haviam dois garotos lá dentro? 
Entender a cabeça de um motorista de ônibus é uma tarefa muito confusa. Agora até eu já estava confusa. E nem mesmo sabia o porquê de ocupar minha mente com isso. Poderia está tentando descobrir o porquê da pessoa ter roubado apenas minhas roupas. Minha carteira de estudante, meu dinheiro, meu celular, minha escova, meu fone de ouvido, minha lixa de unha, meus papéis de rabiscar... Estava tudo dentro da minha bolsa- menos as minhas roupas. 
Aconcheguei-me junto à janela do ônibus e observei a paisagem. Admirei-a por alguns minutos até simplesmente perceber que era o caminho errado. Levantei a cabeça e endireitei a coluna com pressa e elevei a voz para chamar a atenção da cobradora. 
-Com licença,  moça, pode me dizer que ônibus é este? - perguntei. 
A cobradora lançou para mim um olhar cansado, quase piedoso. Depois voltou-se para o motorista. 
-Ela faz a mesma pergunta todos os anos. - suspirou ela sem se dá ao trabalho de responder. 
-Pobrezinha. Gostaria que pelo menos ela pudesse descansar em paz. - comentou o motorista. 
-Não é culpa sua. Sabe que só o que você pode fazer é dirigir. Vamos deixá-la lá e retornar ao serviço. Devemos explicar esse ano também? 
-Mesmo depois de ouvir todo esse tempo, acho que ela tem direito de saber como morreu. - Respondeu o motorista.

Ossos do infinito


Mariana.
Dezoito.
Acidente de carro.
Andava pela rua, bêbada, às quatro da manhã,
Sozinha.

Hugo.
Oito.
Afogado no rio de sua cidade.
Tentava tocar o chão das águas,
Tocar os belos cascalhos.

Ar...
Pulso.
Pulso.
Respirar!

Cecília.
Vinte e oito incompletos.
Overdose.
Pó branco, mais um pouco apenas,
Seu amante, seu frenesi, “sou forte”.

Vitor.
Quarenta e oito.
Câncer repentino.
Sugou sua vida, sugou seu ar,
Em um hospital esquecido.

“Em memória dele
Porque jaz aqui
Seus restos mortais
Suas cinzas encarnadas
Para viver
Da morte
Descansar em paz.”

A paz longínqua de suas vidas
O oito infinito
Do sobrenatural
Limite encarnado
Da cor dos olhos
Carmesim

Tão infinitos...
E por que tudo tem que ter um fim?
O fim de seus corpos putrefatos
Que exalam
O odor que tinham
Em suas medíocres vidas

Vidas de quê?
Buscavam cores
As cores do jardim
“Porque já disse, todos somos
Infinitos!”

Lembraram o cheiro e o gosto
O sabor do doce explodindo na boca
Ou do sangue escorrendo pelo nariz?

Sentiram a garganta queimar
Um fogo dentro
Um dragão espumando e lutando
Pelo simples, tão simples,
Respirar?

Desenharam no ar
Os seus sonhos
Os seus medos
E buscaram o infinito
Apenas o horizonte dele.

Encontraram-se
Abraçaram-se
Choraram
Lamentaram
Perceberam
O
Simples
Infinito
Por que jazem?
Por que lamentam?
Por que choram?
Lacrimejantes olhos
Hoje furos
Fundos buracos
Órbitas sem carne
Ossos

Poeira insensata

E o sentir da pele macia?
O apalpar dos corpos
Do amor?
Aos oito somado aos dezoito
Dos vinte e oito
Menos quarenta e oito
Porque sempre buscaram o infinito

Breves afinal
Porque buscaram o infinito
E quem sabe o encontraram?
Pois cá estou eu a narrar
A procura dos ossos pelo sucessivo oito

Acharam e negaram
Aquele bendito ciclo natural
Sem rimas
Sem brevidade ou métrica
Apenas o final
Da simples e mais que singela
Lei universal

“Veja seu epitáfio.
Confirme seu nome completo.
Seu nascimento, como uma estrela,
Um raiar de luz?
E o bendito dia da busca do infinito,
É essa sua cruz,
O seu sim da morte, amigo?”

“Jaz você, amigo,
Naquela tumba fria
Tão sozinha
Tão escura
Tão você
Não percebe, amigo?
É o seu interior.
Foi sua busca pelo infinito.
Foi apenas
O seu fim.
Um fim apenas?
O sim do seu ponto ferindo o final.”

Vislumbra.
Sinta
O seu feliz horizonte
O fim da sua carne
Início de seus ossos
Prazer, infinito.
Buscaste o oito,
Encontraste...
É você.