Sempre estive andando. Não posso parar. O que aconteceria se eu o fizesse? Talvez tudo fosse chão abaixo. Talvez tudo o que carreguei durante todo esse tempo caia. Não quero perde-los. Não vou largá-los. Continuarei a carregá-los nas costas. Mas são tantos. Por onde passo carrego sentimentos e sonhos que estão perdidos pelo caminho, pensamentos antes pertencidos a estranhos. Eu os carrego na esperança de algum dia poder entregá-los aos seus respectivos donos. Mas eles se apegaram a mim. Não param de aparecer. Está ficando cada vez mais pesado. Está ficando cada vez maior. Fico me perguntando qual foi a ultima vez que vi o céu. Há vários anos ando por esta avenida, mas a carga é tão volumosa que cobre parte dos meus olhos, é tão pesada que ando inclinada há um tempo. Mas está tudo bem, porque eu a quero. Mesmo os pesadelos, mesmo os sentimentos negativos, mesmo as ideias falhas. Apesar dessas, também tenho ambições, desejos, esperanças e felicidades, mas entristeço-me ao lembrar que alguém poderia ter perdido pesos tão importantes. Tento esforçar-me para olhar o céu. Mas são pesados. São tantos. Poderia simplesmente deixá-los no chão e livrar minhas costas, mas não posso abandonar algo que já foi deixado por alguém. Deve ser doloroso perder a esperança, um amor, uma paz. A avenida é sempre tão deserta. Gostaria que tivesse alguém por aqui. Quero perguntar se é possível que essas emoções voltem para suas origens. Mesmo a depressão e a angustia merecem ter um lugar especial. Ultimamente muitos sentimentos têm entrado em conflito em minhas costas.
Quero olhar para o céu. Não entendo de constelações. Não sei me orientar por estrelas, mas estas me fascinam. Eu quero vê-las. Mas não posso. Tenho que carregar meu fardo.
Ouço uma voz. Não consigo compreender o que diz.
Não questionei sua origem. Seria este apenas outro perdido? Apenas continuo a andar. Não posso parar. A voz torna a falar algo. Eu não compreendo. Não falo sua língua. Essa voz não é de um sentimento. Parece uma fusão. Uma união de várias características concretas e abstratas. Esforço-me para vê-lo. É diferente de tudo que já vi antes, porém, me é familiar. De certa forma parece comigo, mas é mais robusto, tem cabelos mais esticados, mais curtos, suas roupas são mais limpas, suas costas são eretas, há um pouco de pêlo no contorno de seu queixo, não consigo ver acima de seu nariz. Meus olhos doem com o esforço. Meu peso é aliviado. Ele tira parte de minha carga e joga no chão. Não tenho tempo para repreendê-lo. Não posso parar. Apresso o passo. A mágoa continua comigo,mas a felicidade segue seu caminho, espero que consiga achar sua terra natal, mas a avenida é longa, eu já andei muito. Minhas pernas doem. Mas sinto-me mais leve. Isso é bom? Ele está libertando a mágoa, a ira, a esperança, o desprezo, a confiança... Fio por fio ele as desamarra de minhas costas. Meus sentimentos estão fugindo. Quero que voltem, não quero sentir a presença da solidão novamente. Esta nunca se vai. Talvez estivesse presa num ponto cego em minhas costas, pois não a sinto mais. Todos se foram. Sinto-me tão leve que é como se eu pudesse voar. Sem explicação começo a chorar. Não suportando o peso leve e sem obrigações de meu corpo, minhas pernas cedem. Há quanto tempo não sento no chão? Meus pés agradecem. Agora posso olhar para cima. Posso ver o céu estrelado. Posso ver com clareza o rosto daquele que me livrou da solidão e de minha quase eterna caminhada. Mas não posso mais avançar. Não tenho energia. Foi-me tirada ela, junto com a esperança. Quero agradecer a ele. Quero pedir que fique, para que a solidão não mais volte, mas não entendo sua língua.
Acho que ele entende a minha. Ele me carregou em suas costas e começou a andar. Agora eu seria seu fardo? Será que ele também sentia a solidão. Não havia mais ninguém por lá. A avenida continuava vazia. O fardo que costumava ser meu ficaria bem, ele tinha esperança e instinto, agora eu só posso fazer uma coisa: apenas confiar naquele que me carrega. Devo apoiá-lo. Não devo impedi-lo de ver o céu. Este estava lindo. Haviam muitas estrelas. Eu não poderia dizer o nome de nenhuma, nem em que direção seguimos, mas estava tudo bem. Pois agora não havia preocupação. Havia apenas o céu estrelado e a luz. Luz? Será esta a primeira vez que vejo um novo dia?





