
E por te amar deveras muito, deixei você ir. E por te amar mais do que a mim mesmo, perdi a chance de te ter. E por te amar tão pura e belamente, desprezei você. Perdi-te por entre meus dedos, quando já te tinha em mãos. Amei-te tanto, mas tão demasiadamente, que pedi que fosse embora. Pedi que arrumasse suas coisas, que guardasse suas pequenas roupas, as dobrasse tão cuidadosamente naquela mala suja e velha que você guarda com tanto carinho. Pedi que se fosse, e que não voltasse. Pedi tantas coisas...! E por que fizeste? Antes mais nada não fizesse, porque queria que fosse mais forte do que eu e ficasse. Antes mais nada guardasse a mim, levasse a mim ao invés da mala suja e velha...! Por ser tão inocente, tão simples e infantil, absorveu minhas palavras como absorve o oxigênio. Voltará a mim? Espero que volte... Já te tinha, mas deixei-te ir. Não fui atrás, e observei suas lágrimas com dor. Mas, impassível, deixei você ir. Deixei que levasse suas meias sujas, seus livros antigos e cheios de mofo, seus móveis sem-graça, suas bugigangas que tanto cuida. Deixei ainda que esquecesse seus óculos de aro fino, aqueles da cor dos teus olhos, aqueles, tão fino quanto você. Pelo menos isso guardarei... Não voltarás, já sei disso. Amo-te tanto que não sou capaz de ir atrás de você, pedir para que volte. Amo-te tal como as estrelas estão no céu, com a certeza de um gavião ao encontrar sua presa. Amo-te, e por isso sei que não podes estar comigo... Porque eu não sou. Sou o que não deveria ser. E prefiro o sofrer comigo mesmo a que com você. Meu sofrer é mínimo, e minha dor, incapaz. Tola, podre... Levo-a comigo, e me orgulho disso! Por que não levar você? Por que não aceitar seu amor tão grande e ingênuo, e ser egoísta de tal forma a guarda-te só para mim? Inócua criatura, pura e imaculada criança, não chores por mim... Peço que vá. Vá de vez. Sabe como dói rejeitar todas as suas ligações? Sabe como dói olhar aqueles seus óculos em minha cabeceira e lembrar de cada olhar furtivo seu? Como faz meu peito tremer ao lembrar da cor dos seus olhos, ou do sabor dos teus lábios de mel? Teu seio virginal antes fosse minha maior lembrança...! Quiçá escolhesse tua casta inocência de menina para recordar ao invés dessas traços detalhes com matizes de branco puro, esse esboço distinto e forjo, um teço de traças deveras, porque muito enlaça e aflige, porque só tu és a dona do olhos brilhantes, do que fascina e atrai pelo simples e ordinário. Porque és ordinária, tu, mulher. Ordinária porque és simples! Simples ao olhar, simples ao se apaixonar. Porque é essa tua espontaneidade que simplesmente maquina, esta que planeja a derrota de minha astúcia. Sinto sua falta, sim. Sinto sua falta mais que a mim mesmo. Esquecesse eu a minha identidade, e todo resquício de um individual que ainda existe, fosse meu ser um vegetal, um animal, um qualquer, um repetente, um esquecido da memória. Um indigente, antes mais! Ah, quiçá, sonho e devaneio nesta quimera. Fantasio, imagino, é a utopia de te ter como paixão. Levaste a mim, e amo você por não poder me aceitar. Por não ser completo, e por precisar de você mais do que a mim. Por querer você ao meu lado. Por querer te ter, incessante, curiosa, simples, deverasmente. Por tremer meu coração como um garoto nervoso pensando em seu primeiro amor. Por me tornar criança, quando eu queria ser adulto, e corajoso para te ter. E sabe o que percebo? Que eu amo você, sim. Mas deixei-te ir... E não foi pelo amor. Mas amo menos... Amo menos porque meu medo é maior. O pavor de deixar de ser eu para tentar ser você. A aversão de esquecer a mim, para dar lugar a você. O pânico em poder te ter e ser, e ser feliz com você, por você. É fraqueza, covardia, temor... Chame do que acredita ser. O egoísmo do egocentrismo. Ame mais a quem te amar como deve. Como você deve ter por mérito. Desmereço e faço jus ao covarde. Porque penso, deixei-te ir. E porque amo, tenho teu remorso, e o guardo como meu. Suas lembranças em minha mente, claras como meu medo e covardia. Amo. Amo como pude, amo como desejava, mas renuncio. Renuncio a mim, porque a outro não pude. Amar por amar, e enfim deixar, e esvaziar, esquecer. Amar? Amar como posso, enquanto a fragilidade não me dispersa. Vás-te, e com demora. Já sinto teu caloroso abraço em mim. Vás-te de minha mente, do meu pensar! Porque a felicidade é meu castigo... E por isso a deixo ir. Meu adeus.